Em pequenas propriedades de Terenos, histórias de amor, trabalho e empreendedorismo revelam como a Cooplaf ajuda famílias a superar as dificuldades de acesso ao mercado, ampliar as oportunidades de renda e construir perspectivas para as próximas gerações
O amor começou pela internet, atravessou a distância entre dois estados e encontrou seu endereço no Assentamento Santa Mônica, em Terenos, Mato Grosso do Sul. Ana Rosa Barbosa Batista deixou Paraíba, para viver ao lado de Simone Gauze. O que ela não imaginava era que também encontraria uma nova profissão.

Na Chácara Alvorada, uma propriedade de seis hectares, Simone já trabalhava com agricultura -bem diversificada -, no ano passado, quando sofreu um acidente em um dos dedos durante a lida com a goiaba, a fruta ganhou um novo olhar.
Ana percebeu que a companheira precisava de ajuda na poda e começou a participar com mais cuidados com o plantio da goiaba. Antes, sua dedicação era maior com hortaliças e mamão.
O que inicialmente foi uma necessidade se transformou em interesse e dedicação.

Quatro anos depois de chegar ao campo, Ana Rosa estuda fruticultura pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) e divide com Simone os desafios de manter a propriedade produtiva.
“Fazer o hoje pensando no amanhã”, resume Ana Rosa.
A frase traduz a maneira como as duas passaram a conduzir o trabalho e também revela uma realidade compartilhada por centenas de famílias que encontraram no cooperativismo uma forma de enfrentar as dificuldades da agricultura familiar.
A goiaba, a família e o mercado

Simone nasceu e cresceu em Campo Grande. Aos 21 anos, mudou-se com a mãe para o assentamento e construiu uma vida ligada à terra. Hoje, a goiaba é a principal fonte de renda agrícola da família. “Agora a goiaba é a mãe da família”, brinca.
São 200 pés em produção e outros 180 em formação. O cultivo exige acompanhamento constante, atenção às condições climáticas e decisões sobre o que produzir e como comercializar.
Nem sempre foi assim.
Durante anos, a propriedade teve a hidroponia como uma das atividades principais. Mas a produção exigia deslocamentos frequentes para comercialização, e o tempo gasto com transporte e vendas comprometia a rotina do campo.
Com Ana Rosa participando do trabalho, as duas reavaliaram as atividades e decidiram concentrar os esforços na goiaba.

A maior parte das frutas passou a ser destinada à indústria. Embora a remuneração por unidade seja menor do que em determinadas formas de venda direta, a estratégia reduz a frequência dos deslocamentos e permite dedicar mais tempo ao cultivo.
“A produção agrícola é muito boa, muito satisfatória, mas tem seus altos e baixos”, reconhece Simone.
Ela também mantém uma atividade profissional fora da propriedade, que ajuda a dar estabilidade financeira nos períodos em que a agricultura enfrenta dificuldades.
Para as duas, produzir bem é apenas uma parte do desafio. A outra é fazer a mercadoria chegar ao comprador.


E é justamente nesse ponto que o cooperativismo ganha importância.
Onde a estrada dificulta, a cooperação abre caminhos
São aproximadamente 56 quilômetros de Campo Grande até a região da cooperativa. O trajeto não é totalmente pavimentado, e parte do caminho exige percorrer estradas de terra.
Para quem produz frutas, verduras e outros alimentos, a distância representa mais do que o custo do combustível.
Transportar pequenas quantidades individualmente pode consumir horas de trabalho, aumentar despesas e dificultar a negociação com compradores.
É nessa realidade que atua a Cooperativa Agrícola Mista da Pecuária de Corte e Leiteira e da Agricultura Familiar (Cooplaf), fundada em janeiro de 2014 e sediada no Assentamento Santa Mônica.
A cooperativa, segundo a presidente Maria Nelzira Cardoso da Silva Garcia, organiza a comercialização dos produtos, reúne a produção de diferentes agricultores e disponibiliza transporte para abastecer mercados e outros compradores de Campo Grande e de municípios vizinhos.
Os agricultores levam as mercadorias até pontos de coleta, onde são recolhidas por caminhões da cooperativa. A Cooplaf também auxilia na documentação fiscal e na negociação comercial.

O produtor não precisa enfrentar sozinho todo o percurso até o consumidor.
Para Simone e Ana Rosa, que conhecem as dificuldades da logística, essa estrutura representa uma vantagem importante.
A cooperação permite transformar pequenos volumes individuais em uma oferta coletiva capaz de atender compradores maiores.
De 40 produtores de leite a 539 cooperados
A história da Cooplaf começou com aproximadamente 40 produtores de leite que buscavam melhorar as condições de comercialização.
Segundo uma das fundadoras, a produtora Cecília de Almeida e colaboradora da Cooplaf, os agricultores enfrentavam dificuldades na negociação com os laticínios e tinham pouca força individual para discutir preços e condições de compra.

A mobilização dos produtores, com a participação de lideranças rurais, deu origem à cooperativa.
Com o passar dos anos, a organização ampliou suas atividades. Além da produção leiteira, passou a fortalecer a comercialização de frutas, legumes e verduras, acompanhando as necessidades dos agricultores e do mercado.
Hoje, segundo dados atualizados informados por Cecília, são 539 cooperados, sendo 70% mulheres. “São produtores de Terenos, onde fica a sede, no Assentamento Santa Mônica, em Campo Grande, Sidrolândia, Jaraguari, Dois Irmãos do Buriti e Nioaque.”
Quem idealizou a cooperativa foi a irmã dela, Lucilha de Almeida, atual vice-presidente da cooperativa. “Lucilha, Maria e outros produtores estudaram como trazer mais renda para todos”, explicou.
O trabalho inclui a busca por compradores, a organização do transporte e a assistência para questões administrativas e documentais. Os associados também encontram condições diferenciadas na compra de insumos e podem participar de iniciativas de capacitação e desenvolvimento produtivo.

Cecília explica que a cooperativa busca parcerias para disponibilizar equipamentos, resfriadores de leite e outros recursos que auxiliam a produção.
Outra frente envolve a regularização de documentos de agricultores familiares, fundamental para facilitar o acesso a políticas públicas e linhas de crédito.
Para quem vive da terra, essas ações representam oportunidades de produzir com mais organização e segurança.
A força feminina que movimenta a cooperativa
A trajetória da Cooplaf também é marcada pela participação das mulheres.
Cecília, de 48 anos, conhece a vida no campo desde a infância. Chegou ao Assentamento Campo Verde ainda criança, acompanhando a família que ajudou a construir aquela comunidade.

Hoje, como colaboradora da cooperativa, participa da gestão e do atendimento aos produtores.
Ela acompanha agricultoras que ampliaram suas atividades, passaram a administrar melhor a produção e conquistaram novas possibilidades de renda.
Segundo Cecília, há mulheres que assumem diretamente o cultivo, organizam a comercialização e se destacam tanto no setor leiteiro quanto no hortifrúti.
Uma das produtoras, conforme relata, chegou a receber R$` 20 mil em um mês pela comercialização da produção. O resultado não representa uma renda mensal fixa nem necessariamente lucro líquido, mas ilustra a capacidade de geração de receita de uma propriedade familiar.
Para Cecília, a maior recompensa está em acompanhar as mudanças na vida dos associados: famílias que conseguem investir em suas propriedades, melhorar as condições de trabalho e permanecer no meio rural.
Ela observa ainda o retorno de filhos de agricultores que passaram a enxergar possibilidades de renda nas atividades dos pais, onde muitos, como Simone e Thiago, herdaram de seus pais.
Na Chácara Alvorada, Simone e Ana Rosa representam essa transformação.
Simone traz a experiência adquirida ao longo de mais de duas décadas no campo que teve início com sua mãe. A companheira Ana Rosa, que trabalhou desde jovem no comércio da família, acrescenta conhecimentos de gestão e busca aperfeiçoamento técnico. “Eu trabalhava em supermercado”, disse Ana.
As duas dividem a vida, as decisões e o trabalho.

Simone, que também integra a diretoria da Cooplaf, na função de tesoureira, sabe que a organização coletiva não elimina as dificuldades da agricultura. Mas acredita que torna os produtores mais preparados para enfrentá-las.
“Não é que a dificuldade do mercado vai ser menor pra gente. É que unido a gente tem mais força”, afirma.
Para ela, a cooperativa precisou aprender a compreender o mercado consumidor, definir ciclos de produção e oferecer produtos com regularidade e qualidade.
A experiência trouxe resultados. Hoje, determinados alimentos produzidos pelos cooperados conseguem chegar aos compradores ao longo de todo o ano.
Na propriedade vizinha, uma nova atividade une a família
Do outro lado da cerca, Thiago Benites Correia, de 41 anos, e Gabriella Baes Pires Correia, de 39, também trabalham para construir novas possibilidades de renda.
Thiago vive há 23 anos no campo. Ao lado de Gabriella, cria quatro filhos e desenvolve atividades ligadas à pecuária.

Recentemente, a família decidiu investir na apicultura.
O interesse pela criação de abelhas já existia, mas a percepção de que havia demanda por mel incentivou Thiago a procurar cursos e conhecer melhor a atividade.
Há cerca de dois anos, as colmeias passaram a fazer parte da rotina da propriedade.
Hoje, a família trabalha com 30 colmeias. O aprendizado envolveu todos, que precisaram conhecer os cuidados com as abelhas, as técnicas de manejo e os procedimentos necessários para a produção do mel.
Os filhos participam dessa experiência.

O mais velho, Marky Victor Pires Correia, está cursando Matemática na modalidade de ensino a distância pela UCDB e segundo, Max Vinícius Pires Correia, o filho do meio, está mais envolvido na rotina do campo e também trabalha com as abelhas.
Mais do que ajudar os pais, Max já possui seis colmeias próprias.
Sua iniciativa mostra como uma atividade desenvolvida pela família pode despertar o interesse empreendedor das novas gerações.
Thiago e Gabriella também são cooperados da Cooplaf.
Para desenvolver a apicultura, recorrem frequentemente à Cecília de Almeida, da cooperativa, em busca de auxílio e orientações.

Atualmente, o mel ainda é comercializado diretamente pela família, mas os produtores estão se organizando para incluir o produto nos canais de venda da cooperativa.
Os potes de 700 gramas são vendidos por R$ 40.

A entrada do mel na comercialização cooperativa poderá representar uma nova possibilidade de acesso ao mercado, especialmente diante das dificuldades de transporte enfrentadas pelas famílias rurais.
Para Thiago e Gabriella, diversificar a produção significa buscar outras fontes de renda. Para os filhos, representa também a oportunidade de aprender uma atividade e desenvolver seus próprios projetos.

O cooperativismo e as próximas gerações
A sucessão familiar é um dos desafios da agricultura.
Muitos produtores envelhecem sem saber se os filhos terão interesse ou condições de continuar nas propriedades. A falta de renda, de oportunidades e de acesso ao mercado pode tornar a vida na cidade uma alternativa mais atraente.
Cecília observa, porém, que alguns jovens estão retornando ao campo porque passaram a enxergar resultados no trabalho dos pais.

(Foto: Renan Kubota)
Com mais organização, possibilidades de comercialização e acesso a conhecimentos técnicos, as propriedades podem oferecer novas perspectivas.
Isso não significa que todos os filhos de agricultores permanecerão no meio rural. Mas representa a possibilidade de escolher, com mais autonomia, onde desejam construir suas vidas.

Na família de Thiago e Gabriella, a iniciativa de Max Vinícius, que já possui suas próprias colmeias, mostra esse processo em andamento.
Na Chácara Alvorada, a história de Simone e Ana Rosa revela outra maneira de construir o futuro: duas mulheres que se encontraram pelo amor e transformaram a convivência em uma parceria de trabalho.
Nenhuma dessas trajetórias está livre das dificuldades. O clima interfere na produção, os preços variam e a distância dos centros consumidores continua existindo.
Mas o cooperativismo oferece uma estrutura para que os agricultores não precisem enfrentar sozinhos todos esses obstáculos.
Fazer o hoje pensando no amanhã

Entre goiabeiras, colmeias e estradas de terra, famílias de Terenos encontram no trabalho coletivo possibilidades de continuar produzindo.
A Cooplaf não cultiva diretamente cada propriedade. Quem planta, cuida dos animais, enfrenta o clima e realiza a colheita são os próprios agricultores.
Mas a cooperativa ajuda a conectar esse esforço ao mercado, organizando o que seria muito mais difícil realizar individualmente.
Na Chácara Alvorada, Ana Rosa encontrou o amor e descobriu uma profissão. Na propriedade vizinha, Thiago e Gabriella compartilham com os filhos os conhecimentos de uma nova atividade.
São histórias diferentes, unidas pelo desejo de viver do próprio trabalho.
Naqueles pequenos pedaços de terra, o futuro não depende apenas da próxima colheita. Também é construído pelo conhecimento compartilhado, pelas oportunidades que surgem e pela força de produzir juntos.
Como diz Ana Rosa, é preciso “fazer o hoje pensando no amanhã”.














