Na Aldeia Urbana Água Bonita, famílias terena transformam pequenos canteiros em alimento, renda e solidariedade. A água tratada ajuda a manter a produção e uma relação com a terra que atravessa gerações
A água alcança as folhas largas das hortaliças enquanto o trabalho segue entre os canteiros da Aldeia Urbana Água Bonita, na região norte de Campo Grande. Ali, famílias indígenas da etnia terena encontraram uma maneira de continuar cultivando a terra, mesmo cercadas pela cidade.
A água tratada, fornecida pela Águas Guariroba, é essencial para manter a produção. Mas quem vive da horta conhece também os desafios impostos pela natureza.
Quando a chuva é forte demais, Zenilda Pereira, de 54 anos, pode perder parte do trabalho de semanas. Foi o que aconteceu recentemente com sua produção de alface.

Da mesma água que permite o cultivo também podem vir os prejuízos, quando ela chega em excesso.
Na aldeia, onde vivem aproximadamente 330 famílias, 27 participam diretamente da horta, que se tornou fonte de alimentação, renda e preservação dos conhecimentos tradicionais.
Da lavoura aos pequenos canteiros
Zenilda aprendeu a trabalhar com a terra ainda criança. Plantava arroz, feijão, mandioca e milho-verde, atividades que fizeram parte de sua vida por cerca de duas décadas.
Hoje, cultiva couve, repolho, alface, salsinha, coentro e outras hortaliças. Também cuida de galinhas.
Enquanto o marido se recupera de uma cirurgia, ela assume praticamente sozinha o trabalho diário nos canteiros.
“Foi sempre eu e Deus”, conta.

A produção é comercializada diretamente com consumidores e pequenos mercados da região. Os pedidos também chegam por telefone, e as hortaliças são entregues nas casas dos compradores.
Mas nem tudo o que Zenilda colhe é vendido.
Quando a produção permite, ela distribui alimentos entre vizinhos e trabalhadores da limpeza urbana.
“É maravilhoso você poder atender a vizinha que está pedindo uma couve, um repolho, uma salsinha, um coentro, uma alface. É gratificante você colher e levar para ela”, relata.
Avó de seis netos, Zenilda encontrou nos pequenos canteiros uma maneira de continuar trabalhando com a terra, mesmo vivendo na cidade.

Quatro filhos e uma história ligada à terra
A poucos canteiros dali, Ana Paula Porto Ventura também depende da produção de hortaliças para sustentar a família.
Mãe de quatro filhos, ela divide com eles uma história construída em torno da horta.

Um deles é Iudson Michael, de 20 anos. Técnico em elétrica, ele gosta do trabalho com a produção agrícola.

A filha Ana Micaela, mãe de Johnny, de 4 anos, já procurou outras oportunidades profissionais, mas retornou à atividade familiar.

Outra filha, Ana Karolaine, também buscou experiências fora da horta, embora reconheça no cultivo uma ligação com suas raízes.
A atividade familiar chega a render aproximadamente R$ 5 mil por mês nos períodos favoráveis.
O rendimento, porém, depende diretamente das condições climáticas.
“Isso quando o tempo ajuda. Se chove muito, a gente perde tudo”, conta Ana Paula.
O excesso de chuva pode destruir hortaliças prontas para a comercialização e comprometer a renda familiar.
Por isso, manter a produção exige trabalho diário, disponibilidade de água para irrigação e atenção às condições do tempo.
Água tratada ajuda a manter a produção
Na Aldeia Urbana Água Bonita, a água utilizada na irrigação é fornecida pela concessionária Águas Guariroba e chega pela rede de abastecimento. O consumo é registrado por hidrômetro.

(Foto: Renan Kubota)
As famílias contam com a Tarifa Social, benefício destinado à população de baixa renda.
Segundo a professora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Vanderleia Paes Leite Mussi, coordenadora do projeto Horta da Aldeia, o acesso à água tratada e as condições sociais de abastecimento contribuíram para a permanência e a ampliação das hortas.
A disponibilidade de água é fundamental para manter o cultivo, especialmente nos períodos sem chuva.
Sua qualidade também é importante para a segurança alimentar, sobretudo na produção de hortaliças frequentemente consumidas cruas, como alface e cheiro-verde.
A utilização de água de qualidade na irrigação contribui para reduzir riscos de contaminação, embora a segurança dos alimentos também dependa de boas práticas de cultivo, manuseio e higienização.
Na Água Bonita, o abastecimento não atende apenas às necessidades domésticas. Também permite a continuidade de uma atividade produtiva que leva alimentos à mesa e gera renda para famílias indígenas.

Um projeto que nasceu da necessidade de preservar o cultivo
A horta integra um projeto acadêmico desenvolvido pela UFMS com a participação de instituições parceiras, como a Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural (Agraer).
A professora Vanderleia Mussi explica que a proposta de revitalização do plantio ganhou força durante o primeiro Seminário de Políticas Públicas dos Povos Originários, realizado em 2017.
A iniciativa procurava responder a uma realidade enfrentada por famílias indígenas que passaram a viver em áreas urbanas.

Nas aldeias tradicionais, o cultivo costuma incluir hortas e roçados. Na cidade, a limitação de espaço exige outras alternativas.
A produção de hortaliças, que podem ser cultivadas em pequenas áreas e comercializadas com maior frequência, tornou-se uma possibilidade.
Em 2018, o projeto começou envolvendo quatro comunidades e, desde então, ampliou sua atuação.
Segundo levantamento divulgado em maio de 2026, o Horta da Aldeia atendia 22 comunidades em oito municípios de Mato Grosso do Sul, incluindo aldeias, escolas, associações e espaços comunitários.
Além do fornecimento de mudas, a UFMS realiza acompanhamento semanal nas comunidades.
A equipe visita as plantações, conversa com os agricultores, identifica dificuldades e busca soluções construídas com as próprias famílias.
Vanderleia, que trabalha há mais de 35 anos junto ao povo terena, destaca que o projeto reconhece os conhecimentos que os agricultores já possuem.
O objetivo não é substituir práticas tradicionais, mas encontrar maneiras de mantê-las e adaptá-las às condições de vida nas cidades.



Hortas indígenas já movimentaram mais de R$ 1 milhão
O projeto Horta da Aldeia ultrapassou R$ 1 milhão em vendas acumuladas entre 2018 e dezembro de 2025, segundo levantamento divulgado pela professora Vanderleia e já publicado pelo Campo Grande News.
O resultado considera o conjunto das comunidades atendidas pelo projeto, não apenas a Aldeia Urbana Água Bonita.

Os agricultores registram as vendas em cadernetas fornecidas pela equipe universitária. Os documentos reúnem notas fiscais das entregas realizadas por meio de programas públicos, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), além de recibos das vendas diretas.
A consolidação dos dados é realizada anualmente, em dezembro.
O projeto também apresenta relatórios trimestrais à UFMS, à Fundação de Apoio à Pesquisa, ao Ensino e à Cultura (Fapec) e ao Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar.
Para a professora Vanderleia, entretanto, os resultados não podem ser medidos apenas pelo dinheiro arrecadado.
Uma parte da produção é consumida pelas próprias famílias. Outra é compartilhada com parentes, vizinhos e pessoas da comunidade.
Esses alimentos ajudam a reduzir as despesas domésticas e fortalecem relações de solidariedade.

Entre os terena, o conceito de Jopói, associado à reciprocidade e à partilha, também está presente no projeto.
Segundo os responsáveis pelo Horta da Aldeia, aproximadamente 10% da produção é destinada a um fundo solidário, que permite a distribuição gratuita de alimentos a pessoas e instituições escolhidas pelas comunidades participantes.
Na Água Bonita, esse espírito de partilha está presente na história de Zenilda, que oferece parte da colheita a outras pessoas.
A abordagem do projeto considera também o significado cultural da agricultura indígena, os hábitos alimentares, os conhecimentos sobre o plantio e a autonomia de cada família para decidir o que produzir e como utilizar os alimentos.
A produção que não passa pelo comércio também tem valor.
Uma aldeia que preserva suas raízes
A Aldeia Urbana Água Bonita reúne aproximadamente 330 famílias, predominantemente da etnia terena, em um loteamento do Governo do Estado.
A cacique Aliscinda Tibério, de 48 anos, vive há sete anos na comunidade e está em seu segundo mandato de quatro anos, após ser escolhida pelos moradores.


A presença indígena dentro da cidade reúne diferentes gerações e trajetórias. Há profissionais com formação superior, estudantes e jovens que procuram oportunidades fora da comunidade.
Mesmo assim, o cultivo continua sendo parte da vida de muitas famílias.
Entre as gerações mais novas, como os filhos de Ana Paula, a horta convive com a formação profissional e a busca por novas experiências.
A relação com a terra não impede outros caminhos. Ela permanece como uma possibilidade de trabalho e de continuidade cultural.
Da água à mesa, uma história que continua
Na Aldeia Urbana Água Bonita, a água tratada que chega pela rede de abastecimento ajuda a manter os canteiros produtivos, garante o cultivo de alimentos e contribui para a renda das famílias indígenas.


(Foto: Renan Kubota)




Mas nem toda colheita aparece nas estatísticas de vendas.
Parte dela está na couve entregue à vizinha, no cheiro-verde compartilhado com outra família e nas hortaliças que Zenilda oferece aos trabalhadores da limpeza urbana.
São alimentos que carregam o trabalho de agricultores indígenas e conhecimentos transmitidos entre gerações.
Entre a terra cultivada pelos mais velhos e a alegria dos mais jovens, a água faz parte de uma história que continua sendo construída todos os dias.
Na Água Bonita, a água não faz crescer apenas hortaliças. Ajuda a cultivar o futuro.














