Angela Miracema corre com a arte, a memória e o amor que exala ao respirar

Artista transforma a corrida em caminho de reconstrução e vive, no Japão, uma experiência de descobertas e cura

A arte, os sentimentos, a corrida e o Japão revelam a conexão mais expressiva e verdadeira nos gestos e olhares de Angela Miracema Batista Fernandes.
Aos 59 anos, artista desde sempre, ela nunca deixou de criar. Desde pequena, qualquer pedaço de papel, qualquer técnica, qualquer possibilidade de arte era uma forma de existir no mundo. A sensibilidade sempre esteve ali.
Mas foi a corrida, que veio depois (eu diria quase por acaso), que ampliou esse olhar e trouxe novos sentidos para além do seu universo. “A atividade física passou a fazer parte da minha rotina”, disse.
O que ela não imaginava é que, anos mais tarde, seria justamente a corrida que a ajudaria a atravessar o momento mais difícil da sua vida. Em 2012, enquanto se preparava para sua primeira maratona, Angela conta que perdeu o filho, Leonardo, vítima de um latrocínio.
A vida parou.


E o que veio depois não foi superação e, sim, sobrevivência. “Eu não tinha vontade de fazer nada, mas eu tinha um compromisso com as minhas amigas”, conta.
Era esse compromisso que a fazia levantar. Um passo de cada vez, um treino de cada vez. “Se eu não tivesse isso, eu não sei onde eu estaria hoje.”

“Se eu não tivesse isso, eu não sei onde eu estaria hoje.”

A maratona de Nova York naquele ano foi cancelada. A cidade enfrentava um desastre, pessoas tinham perdido tudo. Ainda assim, milhares de corredores foram para as ruas. “Não havia medalha, não havia linha oficial de chegada”, recorda.
Porém, havia algo maior. “Foi mágico.”
Angela correu muito e, de alguma forma, ali começou um processo que levaria anos para se completar. Dez anos depois, ela decidiu retornar para Nova York. Dessa vez, não para tentar, apenas para fechar um ciclo. “Eu tô correndo pra você”, repetia, em pensamento, a cada quilômetro, para o filho.
E correu, sem música e sem distração. Só sentindo. “Eu não quis ouvir nada. Eu ia me sentir maculando aquele momento.”
Foi ali que a corrida deixou de ser apenas um esporte. Virou conexão, amor em movimento e memória viva.


Essa história tem continuidade, anos depois, veio o Japão. Um lugar que, segundo ela, sempre esteve presente, mesmo antes de estar lá. “Eu sempre sonhei. Sempre me encantei com essa cultura.”
E, quando finalmente chegou no Japão, algo fez sentido de um jeito ainda mais profundo.
Angela não foi para cumprir um roteiro, ela foi para viver. “Eu não tiquei pontos turísticos, eu vivi.”
E viveu como artista, observando o cuidado nos detalhes, o jeito de embalar uma compra, a forma de agradecer, a delicadeza dos gestos, as cores, os tecidos, as ruas, as pessoas. “Cada cena era quase uma obra”.

Para Angela, cada instante é uma inspiração. “Você quer honrar aquele lugar, aquelas pessoas, aquele momento.”
A arte que sempre esteve dentro dela, também estava ali, em tudo. No Japão, Angela não apenas correu, ela se reconheceu.


Na maratona de Tóquio, encontrou algo que já tinha sentido antes, mas nunca com tanta intensidade e clareza. Havia energia coletiva, encontro humano. “Era uma dança, o ir e vir de maratonistas, você se sente parte de um corpo.”
E, mais uma vez, correu: persistente, cansada, emocionada e muito presente. “Foi a melhor prova da minha vida.”
Angela não corre só por ela, percorre cada km com tudo o que carrega: a arte, a história e o amor que não tem fim. E, principalmente, a memória do filho que nunca deixou de estar.
Também carrega a certeza de que deseja retornar para casa, ao marido Paulo, ao filho Vítor e a todos que ama intensamente.
Porque, para ela, correr nunca foi só chegar, é continuar.

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