Em Terenos, família de agricultores aposta na criação de abelhas para diversificar a renda. Com 30 colmeias e a participação dos filhos, os produtores investem na apicultura. A nutricionista esportiva Patrícia Donida, maratonista por 13 vezes, explica quando o mel pode substituir o gel de carboidrato nos treinos
Na propriedade de Thiago Benites Correia e Gabriella Baes Pires Correia, no Assentamento Santa Mônica, em Terenos, o trabalho ganhou uma nova atividade. Além da criação de gado, a família decidiu investir na apicultura e encontrou nas abelhas uma oportunidade de diversificar a produção.
Thiago, de 41 anos, vive há 23 anos no campo. O interesse pela criação de abelhas já existia, mas foi a percepção de que havia mercado para o mel que o incentivou a transformar a ideia em atividade produtiva.
Antes de começar, procurou capacitação. Fez cursos, aprendeu técnicas de manejo e envolveu a família no trabalho.

Há cerca de dois anos, a apicultura passou a fazer parte da rotina da propriedade, que hoje conta com 30 colmeias.
Gabriella, de 39 anos, e os quatro filhos também aprenderam a lidar com as abelhas.


O filho mais velho, Marky Victor Pires Correia, cursa Matemática a distância na UCDB. Já Max Vinícius Pires Correia, o segundo filho, participa mais diretamente das atividades rurais e, também trabalha com o mel e possui seis colmeias próprias.
A iniciativa de Max mostra como o aprendizado em família pode despertar o interesse dos jovens por novas atividades econômicas no campo.
O mel é comercializado diretamente pelos produtores, em potes de 700 gramas vendidos a R$ 40.

Cooperados da Cooperativa Agrícola Mista da Pecuária de Corte e Leiteira e da Agricultura Familiar (Cooplaf), Thiago e Gabriella buscam orientações com Cecília de Almeida, na cooperativa, e estão se organizando para comercializar o mel também por meio da Cooplaf.
Enquanto a família aprende a desenvolver uma nova fonte de renda, o alimento que produz desperta interesse em outro ambiente: o das corridas de rua, dos treinos longos e das maratonas e, ainda, para os ciclistas da região.
Da flor ao pote de mel
A produção do mel começa muito antes da colheita.

As abelhas visitam flores, recolhem néctar e o transformam por meio de processos naturais que envolvem enzimas e redução da umidade. O alimento é armazenado nos favos, onde passa pelo processo de maturação.
Para o apicultor, é necessário acompanhar o desenvolvimento das colônias, as condições do ambiente e o momento adequado para a retirada do produto.
A chuva pode interferir nesse trabalho.
Em períodos chuvosos, a atividade de coleta de néctar pelas abelhas pode diminuir. As condições climáticas também influenciam a florada e a disponibilidade de alimento para as colônias.

Thiago aprendeu que produzir mel exige paciência, conhecimento e cuidados com o manejo das colmeias.
Outro ponto fundamental está na extração.
A qualidade do mel não depende apenas da origem floral. A higiene dos equipamentos, o controle da umidade, o armazenamento e as condições de processamento são importantes para preservar suas características.
A família também trabalha com própolis, uma substância resinosa que as abelhas produzem a partir de materiais coletados das plantas e utilizam na proteção da colmeia.

A produção ainda é comercializada diretamente pela família, que pretende ampliar o acesso ao mercado com o apoio da Cooplaf.
Por trás de cada pote está o trabalho de pessoas que precisaram aprender uma nova atividade, enfrentar as variações do clima e encontrar compradores.
Mas o alimento, segundo Thiago, também ganhou espaço nas conversas entre atletas que procuram alternativas para manter a energia durante exercícios prolongados. “Eu vi a minha bebê tomando um iogurte nesta embalagem, estou inovando com essa opção neste refil para atender corredores, ciclistas. Aprendi com o Senar, fiz as embalagens e temos Instagram para divulgação @apiarioemeliponnario_ouro_doce”, disse.

O mel pode substituir o gel de carboidrato?
Quem corre longas distâncias conhece a importância de manter o fornecimento de energia durante o exercício.
Os géis de carboidrato se tornaram populares entre corredores pela praticidade, facilidade de transporte e por oferecerem quantidades conhecidas de carboidratos.
Mas alguns atletas têm utilizado mel como alternativa.
A nutricionista esportiva Patrícia Donida, que já atendeu mais de 500 maratonistas e completou as sete tradicionais provas da série World Marathon Majors e fez seis maratonas, considera essa possibilidade interessante.

“O mel é um alimento natural, saboroso, uma excelente fonte de energia rápida e ainda contém compostos antioxidantes. Pode fazer parte de uma alimentação saudável, sim!”, afirma.
O principal componente nutricional do mel são os carboidratos, especialmente glicose e frutose.
Durante exercícios prolongados, esses açúcares podem fornecer energia ao organismo.
Patrícia explica que glicose e frutose utilizam diferentes vias de absorção intestinal, característica que pode ser interessante em estratégias de ingestão de carboidratos durante atividades de resistência.

Isso, entretanto, não significa que o mel seja automaticamente superior aos produtos desenvolvidos para a nutrição esportiva.
“A ressalva é que precisamos avaliar a quantidade ingerida, a tolerância gastrointestinal e a praticidade”, explica.
A especialista observa que os géis permitem controlar com maior precisão a quantidade e a composição dos carboidratos, especialmente em estratégias que exigem ingestões elevadas durante o exercício.
O mel, por sua vez, pode ser utilizado por atletas que apresentem boa tolerância gastrointestinal e consigam atingir suas necessidades nutricionais com ele.
“Se o atleta se adapta bem ao mel e consegue atingir suas necessidades, não vejo problema em utilizá-lo”, afirma.
O segredo está na quantidade
Na prática, mel e gel de carboidrato não devem ser comparados apenas pelo tamanho da embalagem ou pela quantidade consumida.
O mel contém água e outros componentes além dos açúcares. Já os géis esportivos apresentam formulações variadas, com diferentes concentrações de carboidratos e, em alguns casos, eletrólitos ou cafeína.
Por isso, a substituição exige observar a quantidade efetiva de carboidratos de cada porção.
Outro ponto importante é a tolerância gastrointestinal.
Durante uma corrida longa, o sistema digestivo pode se tornar mais sensível. Quantidades inadequadas ou alimentos que não fazem parte da rotina de treino podem provocar desconforto.
Patrícia recomenda que a estratégia nutricional seja experimentada durante os treinamentos, e não improvisada no dia de uma competição.
A nutricionista, que também é maratonista experiente, conta que costuma priorizar os géis em seus próprios treinos longos.

A escolha está relacionada principalmente à praticidade e ao controle das doses.
Mas ela reconhece que o mel pode funcionar para atletas que gostam do alimento e se adaptam bem a ele.
“No fim, o mais importante é garantir o aporte adequado de carboidratos e treinar a estratégia nutricional, independentemente da fonte escolhida.”
Antes do treino, outra possibilidade
O mel também pode fazer parte da alimentação antes da atividade física.

Por ser uma fonte de carboidratos de fácil disponibilidade, pode ser incluído em refeições e lanches que antecedem o exercício, respeitando as necessidades individuais.
Patrícia cita combinações com pão, tapioca, frutas e outras preparações.
O objetivo é fornecer energia de maneira compatível com o tipo, a intensidade e a duração do treino.
O mel também pode aparecer na alimentação do dia a dia, acrescentando sabor e variedade.
Mas a especialista faz uma ressalva importante: sua origem natural não significa que deva ser consumido sem limites.
Natural não significa consumo ilimitado
Apesar de conter pequenas quantidades de compostos antioxidantes, o mel é predominantemente composto por açúcares.
Seu consumo deve fazer parte de uma alimentação equilibrada, levando em consideração as necessidades de cada pessoa.
Também existem cuidados específicos na infância.

O mel é contraindicado para crianças menores de um ano pelo risco de botulismo infantil, uma doença grave associada à ingestão de esporos da bactéria Clostridium botulinum.
Até os dois anos, a recomendação nutricional é evitar açúcares livres, incluindo o mel.
Patrícia também alerta contra a ideia de que produtos naturais sejam necessariamente melhores do que os industrializados em qualquer situação.
“O mel é um excelente alimento e pode ser um ótimo aliado do atleta. Só precisamos lembrar que natural não significa consumo ilimitado, assim como industrializado não significa necessariamente uma escolha ruim. O que importa é a composição, a quantidade e o contexto em que será utilizado.”
Uma história que começa no campo
Na propriedade de Thiago e Gabriella, a produção de mel representa uma nova experiência para toda a família.

As 30 colmeias exigem acompanhamento, conhecimento e trabalho. A participação dos filhos mostra que o aprendizado pode se transformar em novas oportunidades.
Max Vinícius já desenvolve sua própria atividade com seis colmeias.
O mel ainda é vendido diretamente pelos produtores, mas a família está se preparando para comercializar o produto por meio da Cooplaf, ampliando as possibilidades de alcançar novos compradores.
Para quem corre, o mel pode representar uma alternativa de fornecimento de energia. Para quem produz, representa uma possibilidade de renda e continuidade no campo.
Da propriedade rural aos treinos de longa distância, o mesmo alimento encontra diferentes funções.
E, antes de chegar à mesa ou acompanhar um corredor em seu próximo longão, cada pote de mel começa com o trabalho de uma família que decidiu aprender algo novo e transformar esse conhecimento em oportunidade.














