Pesquisador Guilherme Reis Ranieri explica como plantas pouco conhecidas podem ampliar a diversidade da alimentação e fala sobre nitratos, minerais e compostos bioativos que interessam a quem pratica esportes
A gente olha para a alimentação esportiva e encontra um repertório bastante conhecido: banana, beterraba, carboidrato, proteína, isotônico, gel. Mas e aquelas plantas que nascem no quintal, aparecem entre uma horta e outra ou são arrancadas porque aprendemos a chamá-las simplesmente de “mato”?
De repente algumas delas mereçam um segundo olhar.
O gestor ambiental e pesquisador Guilherme Reis Ranieri, 36 anos, conhecido pelo projeto Matos de Comer, esteve recentemente em Campo Grande para lançar seu segundo livro. Desde a primeira obra, publicada em 2020, ele vem fazendo justamente esse trabalho: mostrar que existe uma diversidade de plantas alimentícias que desapareceu do prato antes mesmo de desaparecer da paisagem.

E, para o Papo Endorfina, fizemos uma pergunta inevitável: alguma delas poderia interessar especialmente a quem corre, pedala ou pratica outros esportes?
Do mato para o desempenho esportivo
Guilherme Ranieri diz que sim, embora faça uma ressalva importante: não existe uma planta milagrosa capaz de transformar sozinha a performance.
Uma das possibilidades mais interessantes está nos nitratos, encontrados em vegetais como a beterraba e suas folhas.
O nitrato alimentar pode ser convertido pelo organismo em óxido nítrico, molécula envolvida na regulação do fluxo sanguíneo e na eficiência muscular. É por isso que a beterraba já ganhou espaço nas pesquisas sobre exercício e endurance.
Ranieri também chama atenção para outro caminho menos espetacular, mas talvez mais importante: a diversidade nutricional.
Plantas alimentícias pouco utilizadas podem contribuir com minerais, fibras, vitaminas e compostos bioativos. Ele cita, entre os exemplos, capuchinha, chia, ora-pro-nóbis e folhas de batata-doce, destacando nutrientes como ferro e zinco.
O zinco, por exemplo, participa de inúmeros processos metabólicos, incluindo síntese proteica e funcionamento adequado do organismo. Mas isso não significa que comer determinada planta produzirá automaticamente mais músculos ou melhorará o tempo nos 10 km.
A lógica é outra: performance começa em um organismo adequadamente nutrido.

Quando passamos a comer tão poucas plantas?
“Estamos cercados de plantas que poderiam ser alimento, mas que deixamos de reconhecer dessa maneira.”
Segundo o pesquisador, parte dessa perda está relacionada à domesticação e à seleção das plantas que chegaram às grandes cadeias comerciais. Ao longo do tempo, privilegiamos características como produtividade, aparência, sabor e facilidade de cultivo.
Enquanto isso, inúmeras espécies ficaram fora das prateleiras.
Ranieri chama atenção para plantas silvestres que podem apresentar concentrações interessantes de fibras, minerais e compostos fenólicos e antioxidantes. Mas a perda não é apenas nutricional.
É também cultural.
Serralha, taioba, major-gomes e outras plantas fizeram parte da alimentação de famílias e comunidades. Quando uma geração deixa de consumi-las e não ensina a seguinte a reconhecê-las, desaparece junto um pequeno pedaço da memória alimentar.

“Perdemos nutrientes, sabores, receitas e conhecimento.”
E o que encontraríamos caminhando por Campo Grande?
Se Guilherme voltasse a Campo Grande e saísse para caminhar conosco, provavelmente não precisaríamos ir muito longe.
Ele cita plantas adaptadas ao clima quente que podem aparecer por aqui, como caruru, trapoeraba, espinafres silvestres e picão.
Algumas provavelmente seriam ignoradas. Outras, arrancadas.
Mas aqui entra uma advertência essencial: encontrar uma planta comestível na rua não significa que ela deva ir da calçada para o prato.
Ranieri recomenda evitar plantas de locais sujeitos a poluição e contaminação. Uma alternativa é obter sementes ou mudas identificadas corretamente e cultivá-las em ambiente adequado.
A regra mais importante: na dúvida, não coma

“Conhecer “matos de comer” não é sair experimentando folhas.”
Ranieri recomenda começar conversando com quem realmente conhece essas plantas: agricultores, produtores orgânicos, pessoas mais velhas que preservam esse conhecimento e especialistas.
Depois vem algo fundamental: aprender o nome científico da espécie.
Nomes populares mudam de uma região para outra. Plantas diferentes podem receber nomes semelhantes e, mais perigosamente, espécies visualmente parecidas podem não ser igualmente seguras para consumo.
O pesquisador conta que dedica parte de seu trabalho justamente às plantas que “parecem, mas não são”.
É quase um trabalho de investigador: observar folhas, flores, pelos, textura, ambiente onde cresce e época do ano.
E existe ainda outro detalhe. Identificar corretamente a espécie não basta. É preciso saber qual parte pode ser consumida e como prepará-la. Há plantas que não devem ser ingeridas cruas e outras cujo sabor e características mudam conforme o estágio de desenvolvimento.
A regra, portanto, é simples:
não existe aventura gastronômica que justifique comer uma planta que você não identificou com segurança.
Para o atleta, talvez a grande descoberta seja a diversidade

Para quem busca desempenho, é tentador procurar o próximo alimento capaz de melhorar o pace, acelerar a recuperação ou aumentar a força. Mas talvez essas plantas tragam uma provocação diferente.
E se, além de perguntar o que comer para correr melhor, começássemos a perguntar quantos alimentos deixamos de conhecer?
A ciência do esporte já mostrou que alguns componentes vegetais, como os nitratos, podem ter aplicações interessantes no exercício. Mas o universo apresentado por Ranieri vai além da promessa de performance.
Ele fala de diversidade alimentar, conhecimento, cultura e autonomia.
“Porque há muito mais comida ao nosso redor do que imaginamos. Só precisamos aprender a enxergá-la.”














