A vida por trás dos aquários: o trabalho que não para no Bioparque Pantanal

Foto: Luciano Muta

Foto: Luciano Muta

No maior aquário de água doce do mundo, mais de 5 milhões de litros de água, milhares de animais e uma equipe que trabalha 24 horas por dia revelam os bastidores de um dos principais cartões-postais de Mato Grosso do Sul. Dos mergulhadores aos profissionais que monitoram a qualidade da água, uma engrenagem movida por conhecimento, tecnologia e dedicação à vida

Quem visita o Bioparque Pantanal, em Campo Grande, se encanta com a beleza dos peixes e a diversidade de espécies que habitam seus aquários. O que poucos conhecem é o trabalho realizado nos bastidores para manter toda essa vida.

Dentro dos tanques, mergulhadores dividem o espaço com os peixes enquanto realizam a limpeza e a manutenção dos aquários. Fora deles, profissionais de diferentes especialidades cuidam da qualidade da água e do funcionamento de uma estrutura que não pode parar. Nem à noite, nem aos domingos ou feriados.

Por trás da beleza de um dos principais cartões-postais de Mato Grosso do Sul, existe uma estrutura que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana. São pessoas, equipamentos e sistemas de monitoramento responsáveis por manter mais de 5 milhões de litros de água em condições adequadas à vida.

Um mergulho que poucos conhecem

Equipados para trabalhar debaixo d’água, os mergulhadores realizam um dos serviços mais curiosos do Bioparque. Eles entram nos tanques para limpar os painéis de acrílico, retirar resíduos e realizar procedimentos de manutenção.

Enquanto trabalham, dividem o espaço com os próprios animais que ajudam a proteger.

Mas essa limpeza exige muito mais do que habilidade para mergulhar. Existem protocolos de segurança, limites de profissionais por tanque e cuidados específicos para preservar tanto os trabalhadores quanto os peixes.

A engenheira civil Estela Dejane, gerente técnica operacional do Bioparque, acompanha as equipes responsáveis pela manutenção do empreendimento. Ela explica que o serviço precisa considerar as condições de cada ambiente e a segurança de todos os envolvidos.

“É garantir essa qualidade, garantir a qualidade da água, por exemplo, não só para os peixes, mas para o mergulhador que vai entrar lá fazer aquela manutenção”, explica.

Segundo Estela, quatro mergulhadores realizavam esses serviços na data da entrevista, com previsão de ampliação da equipe para seis profissionais.

Parte desse trabalho passou a ser realizada durante a visitação. A decisão veio depois que a equipe percebeu o encantamento do público ao acompanhar a limpeza dos acrílicos.

A alimentação de alguns peixes também passou a acontecer em horários de visitação, permitindo que o público conheça parte dos cuidados realizados diariamente.

O trabalho que antes acontecia longe dos olhos dos visitantes também se transformou em uma oportunidade de conhecer os bastidores do Bioparque.

Mais de cinco milhões de litros de água e uma descoberta

Para sustentar toda essa vida, o Bioparque necessita de um recurso indispensável: a água.

São mais de 5 milhões de litros distribuídos pela estrutura, com características e necessidades diferentes em cada ambiente.

E há uma particularidade que muitos visitantes desconhecem: a água utilizada nos tanques não vem da rede pública de abastecimento.

Segundo a diretora-geral do Bioparque Pantanal, Maria Fernanda Balestieri, o abastecimento dos aquários é realizado por poços artesianos. Depois, a água passa por processos de tratamento, filtragem e recirculação.

O sistema fechado permite que a água seja tratada e reutilizada, reduzindo a necessidade de novas captações e contribuindo para o uso responsável dos recursos hídricos.

A diretora explica que cada tanque possui características próprias. O pH, por exemplo, pode variar conforme as necessidades das espécies que habitam aquele ambiente.

Antes de serem colocados nos tanques, os animais passam por avaliações para que espécies com características e necessidades semelhantes possam compartilhar o mesmo espaço.

Não basta, portanto, que a água pareça limpa aos olhos dos visitantes. Ela precisa apresentar condições adequadas à vida de cada espécie.

“Se essa água não estiver nos parâmetros adequados, a gente não tem vida, porque esses animais dependem de parâmetros específicos”, explica Maria Fernanda.

O coração do Bioparque

Por trás dos aquários existe uma estrutura tecnológica que a maioria dos visitantes não vê: o Sistema de Suporte à Vida, conhecido pela sigla SSV.

É nele que se concentram processos essenciais para o tratamento e a manutenção das condições da água.

Maria Fernanda define o sistema como o coração do empreendimento.

O funcionamento envolve equipamentos automatizados e o trabalho de profissionais especializados em diferentes áreas do conhecimento.

“É como se fosse uma engrenagem, que sempre depende de várias equipes para poder estar funcionando”, compara a diretora.

O trabalho reúne biólogos, químicos, oceanógrafos, zootecnistas, médicos-veterinários e profissionais de manutenção, entre outras especialidades.

Cada área contribui para que os ambientes aquáticos permaneçam em condições adequadas e os animais recebam os cuidados necessários.

A água que permite aos visitantes admirar os peixes é a mesma que exige atenção permanente de quem trabalha nos bastidores.

Duas águas, o mesmo compromisso com a vida

Enquanto os peixes dependem de uma água preparada especialmente para suas necessidades, os milhares de visitantes que passam pelo Bioparque Pantanal contam com a água tratada fornecida pela Águas Guariroba.

A água da rede pública é destinada ao consumo humano, e sua qualidade passa por procedimentos de controle e monitoramento.

Em frente ao Bioparque, a reportagem do Papo Endorfina acompanhou uma análise realizada em um ponto de controle da concessionária.

Bruno Silva Santos, supervisor de laboratório da Águas Guariroba, explicou que o procedimento começa com a abertura do registro. A água é deixada correr durante três a cinco minutos para que a amostra represente melhor aquela que está circulando na rede de distribuição.

Depois, o fluxo é reduzido para a realização das primeiras verificações em campo: cloro, pH e temperatura.

Na análise acompanhada pela reportagem, o resultado de cloro residual foi de 0,78 miligrama por litro, valor dentro dos parâmetros previstos pela Portaria GM/MS nº 888/2021, do Ministério da Saúde.

O resultado é uma das verificações que integram o controle da qualidade da água distribuída à população. A garantia de potabilidade depende do atendimento ao conjunto de parâmetros estabelecidos pela legislação.

É essa água tratada da rede pública que abastece os pontos de uso destinados às pessoas no Bioparque.

Assim, dentro e fora dos aquários, a água recebe cuidados diferentes, mas igualmente importantes: de um lado, para preservar a vida dos animais; de outro, para proteger a saúde das pessoas.

Quando os peixes ganham nomes

Para Heriberto Gimênes Junior, responsável pelo manejo dos animais, trabalhar no Bioparque exige conhecimento científico, experiência e sensibilidade.

A equipe ligada aos cuidados com os animais reúne 23 profissionais de diferentes formações.

Segundo Eriberto, o empreendimento possui 32 tanques de exposição e mais de 100 tanques no Centro de Conservação. Na entrevista, ele informou a existência de 472 espécies de peixes e aproximadamente 45 mil animais.

Ele conta que é difícil encontrar alguém que chegue completamente preparado para trabalhar com tantas espécies. Os profissionais precisam compreender o comportamento dos animais, suas características e necessidades.

Com a convivência diária, alguns acabam criando vínculos tão próximos que até batizam os peixes.

É o caso das arraias Judite, Jurema e Jussara.

Há também um peixe chamado Maria Fernanda, em homenagem à diretora do Bioparque. Segundo Eriberto, a escolha tem relação com o comportamento imponente do animal, que ele descreve como alguém que “bota ordem na casa”.

O exemplo ajuda a compreender uma dimensão pouco visível desse trabalho. Para quem está todos os dias nos tanques, laboratórios e áreas de manejo, os peixes não são apenas parte de uma exposição.

“A paixão é um fator fundamental para trabalhar aqui dentro”, afirma Eriberto.

Quando uma queda de energia exige uma operação de emergência

Se durante o dia o Bioparque encanta os visitantes, à noite o trabalho continua.

Os sistemas precisam permanecer em funcionamento mesmo quando não há público. Uma falha em equipamentos essenciais pode comprometer as condições dos ambientes aquáticos.

Estela Jane conta que, diante de interrupções no fornecimento de energia, a equipe precisa verificar se os equipamentos continuam funcionando corretamente.

O empreendimento dispõe de um grupo gerador, mas isso não elimina a necessidade de acompanhamento.

Ela lembra que tempestades e quedas de energia já exigiram a mobilização de funcionários. Quando isso acontece, profissionais se deslocam até o Bioparque para verificar os equipamentos, independentemente do horário.

“Os nossos animais, os nossos peixes, eles não podem ter uma falha dessas”, explica a gerente.

O compromisso com a manutenção exige atenção diária e uma equipe preparada para responder a situações inesperadas.

Para Estela, esse cuidado ultrapassa a obrigação profissional.

“É paixão pura. É amor mesmo no que a gente faz”, afirma.

Muito além da contemplação

Desde a inauguração, em março de 2022, o Bioparque Pantanal se consolidou como um dos principais cartões-postais de Mato Grosso do Sul.

Segundo Maria Fernanda, o empreendimento recebe, em média, 1.600 visitantes por dia e já recebeu pessoas de mais de 157 países.

Além do turismo, o espaço desenvolve atividades de pesquisa científica, conservação ambiental, educação e inclusão.

Para a diretora, uma das maiores recompensas é acompanhar a reação das crianças que conhecem o Bioparque, especialmente aquelas que não teriam outra oportunidade de visitar um empreendimento dessa dimensão.

Mais de 120 mil estudantes já passaram pelo espaço, segundo ela.

“Aqui não tem como parar, porque nós trabalhamos com vida, e a vida demanda manutenção”, resume Maria Fernanda.

Apesar da relevância, por trás dos números e da beleza dos aquários, permanece um trabalho pouco conhecido.

A água precisa circular, ser tratada e monitorada. Os equipamentos precisam funcionar. Os tanques precisam ser limpos. E os animais necessitam de cuidados todos os dias.

É esse trabalho, realizado por pessoas que raramente aparecem nas fotografias dos turistas, que ajuda a manter vivo um dos principais patrimônios turísticos e científicos de Mato Grosso do Sul.

No Bioparque Pantanal, o espetáculo que encanta os visitantes depende de outro que não pode falhar: o cuidado diário com a água e com a vida.

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