Entre o ônibus dos desistentes e o recorde de 3h09, empresário encontrou coragem para contar a própria história

Conhecido pelas corridas, Bruno Nogueira Alessio lança “Coragem, Viva!” e revisita uma trajetória marcada por ansiedade, excessos, terapia, disciplina e dez maratonas

Quem conhece Bruno Nogueira Alessio pelas corridas talvez estranhe vê-lo agora segurando um livro.

Mas talvez as páginas de “Coragem, Viva!” expliquem melhor o corredor que ele se tornou do que muitas das medalhas conquistadas ao longo de dez maratonas.

Antes do recorde pessoal de 3h09 em Lima, no Peru, e do sonho de correr os 42,195 quilômetros abaixo das três horas, houve uma maratona que terminou de uma maneira bem diferente.

Em 2016, Bruno decidiu enfrentar sua primeira prova da distância, em São Paulo.

A preparação não tinha sido suficiente. Mesmo assim, acreditou que conseguiria compensar a falta de treinamento com disposição. “Achava que ia terminar no peito e na raça.”

Não terminou. Por volta do quilômetro 24, o corpo começou a cobrar a conta. No 35, apareceu uma cena que Bruno nunca mais esqueceria.

O ônibus destinado a recolher os atletas que abandonavam a prova o levou embora.

Sem linha de chegada, sem medalha. Mas com uma lição que carregaria para as próximas corridas e, de alguma forma, também para a vida.

“Sem treino correto e disciplinado não se completa maratona.”

Dez anos depois, a fotografia é bem diferente.

Na Maratona de Lima, Bruno atravessou a chegada em 3 horas e 9 minutos, estabelecendo sua melhor marca.

Entre o ônibus dos desistentes e aquele cronômetro houve muito mais do que quilômetros.

Houve medo, ansiedade, jogos online, álcool, terapia, lesões, paternidade, recomeços e uma pergunta que acabou atravessando toda essa história: em que momento ele havia se afastado do menino corajoso que um dia foi?

O menino de seis anos

A cena aconteceu durante o recreio da escola.

Bruno tinha seis anos quando viu uma menina sendo intimidada por outro garoto.

Não calculou muito, não ficou pensando no que os outros diriam.

Foi lá e empurrou o menino.

Mais de três décadas depois, aquele episódio ganhou outro significado.

Hoje, aos 37 anos, administrador de empresas e pai de Gabriel e Serena, Bruno olha para a criança daquele recreio e enxerga uma característica que sentiu desaparecer ao longo dos anos: a espontaneidade de agir sem deixar o medo do julgamento assumir o controle.

Foi por volta dos 25 anos, durante um processo terapêutico, que começou a perceber esse contraste. “Enxerguei aquele episódio e como havia coragem quando eu tinha um comportamento espontâneo. E como eu tinha medo e vergonha quando estava em ansiedade.”

Era como olhar para duas versões da mesma pessoa.

Quando fugir parecia mais fácil

Bruno identifica dos 11 aos 23 anos como o período em que mais tentou se esconder da própria vida.

Primeiro vieram os jogos online. Depois, o álcool.

Hoje ele consegue olhar para aquele período com outra compreensão. “O que eu estava tentando fugir era do medo de julgamento, medo de ser avaliado, devido à insegurança.”

Segundo Bruno, durante o acompanhamento terapêutico recebeu diagnóstico de ansiedade generalizada e fobia social.

Vieram também anos de excessos.

Noites de muita bebida, apagões.

Manhãs de ansiedade crescente.

Em determinado momento, chegou a imaginar que pudesse estar fisicamente doente.

Foi quando entendeu que alguma coisa precisava mudar.

Talvez essa seja uma das ideias mais interessantes da história que decidiu contar no livro: algumas fugas não parecem fuga enquanto estamos vivendo dentro delas.

A corrida já estava ali

A corrida não apareceu na vida de Bruno como uma solução pronta, ela já existia.

Ainda criança e adolescente, corria em atividades escolares. Mais tarde, ensaiava alguns períodos de treinamento, mas sem continuidade.

Corria alguns dias e passava um ou dois meses parado.

O encontro mais sério com o esporte aconteceu em 2016, quando começou a treinar com uma assessoria.

E foi justamente naquele ano que surgiu a primeira tentativa de maratona.

Aquela que terminou no ônibus.

O fracasso trouxe uma descoberta simples, mas importante: vontade não substitui preparação.

Para quem imaginava que poderia vencer os 42 quilômetros “no peito e na raça”, a maratona apresentou uma palavra menos heroica, porém muito mais eficiente:

disciplina.

Nem toda medalha conta uma vitória perfeita

Depois de São Paulo, Bruno voltou. Vieram novas maratonas e também novas quebras.

Na Maratona do Rio de Janeiro, cometeu um erro clássico de corredor: decidiu trocar de tênis apenas duas semanas antes da prova.

Mudou de marca, amarrou mal o calçado no dia da largada e, por volta do quilômetro 35, já enfrentava dores no tornozelo. Terminou, mas a prova deixou frustração e aprendizado.

Em Buenos Aires, estava correndo bem até aproximadamente o quilômetro 39 e quebrou.

Em Florianópolis, a sensação chegou antes. “Estava muito bem até o km 26 e caiu a chave do motor.”

Foi uma de suas piores performances desde a primeira experiência. Ainda assim, completou.

Bruno foi entendendo que a maratona não é uma sucessão linear de conquistas.

Às vezes, a medalha chega junto com a frustração.

E uma prova ruim pode ensinar mais do que aquela em que tudo funciona.

“A maratona é sobre se entender, se medir, se poupar, sobre a eterna capacidade de aprendizado enquanto testa seus limites e, ao final, sobre não desistir.”

Da frustração ao recorde no Peru

Depois da prova difícil em Florianópolis, Bruno ainda enfrentaria outro obstáculo.

Uma lesão na panturrilha mudou sua preparação para a maratona seguinte.

Foram cerca de 35 dias treinando de maneira mais leve, substituindo parte das corridas por bicicleta e natação.

Não era exatamente o cenário ideal para quem buscava uma grande marca. Mas, Bruno seguiu.

Em Lima, no Peru, veio a resposta.

3h09.

Recorde pessoal.

E, para ele, uma prova de que disciplina pode ser mais importante do que a sensação momentânea de estar pronto.

“Representou a força da disciplina e de acreditar que no final tudo daria certo.”

A distância era a mesma da primeira tentativa em São Paulo.

O corredor, não.

“A graça da vida e da maratona é que vamos aprendendo ao longo dela e sempre temos a oportunidade de, na próxima, colocar tudo aquilo em prática.”

Correr depois de passar anos fugindo

Existe um contraste curioso nessa trajetória.

Durante parte da juventude, Bruno acredita ter usado jogos e álcool para fugir do medo, da exposição e do julgamento.

Anos depois, tornou-se maratonista.

E a maratona oferece poucos esconderijos.

Depois de determinados quilômetros, não adianta fingir que treinou mais do que treinou.

Não adianta negociar com o corpo aquilo que não foi construído antes.

É preciso administrar o que existe: Força, Cansaço, Medo, Dor E cabeça.

Por isso Bruno vê tanta semelhança entre atravessar uma crise pessoal e atravessar o famoso muro da maratona.

Nas duas situações, é preciso se conhecer, medir forças, economizar energia e continuar aprendendo enquanto se avança.

Gabriel e Serena

Hoje, aquele menino de seis anos volta a aparecer de outra maneira.

Bruno é pai de Gabriel e Serena. “Não só lembro como aprendo com os dois todos os dias.”

Se um dos filhos presenciasse uma situação de injustiça, ele gostaria que tivesse a mesma disposição que demonstrou naquele recreio.

Que se colocasse. “Sem medo da consequência.”

Mas Bruno também decidiu que os filhos não conheceriam apenas sua versão de chegada.

No livro, fez questão de mostrar também os tropeços.

“Não quero que eles sejam o Bruno que tentou se esconder da vida com os vícios errados.”

Ele acredita que erros podem ser contados justamente para que não precisem ser repetidos.

Ao mesmo tempo, sabe que não conseguirá impedir Gabriel e Serena de viverem as próprias dores, escolhas e aprendizados.

Talvez uma das formas mais difíceis de coragem para um pai seja essa: não mostrar aos filhos apenas os pódios.

O livro começou pelo amor

Bruno começou a escrever em 2020.

Curiosamente, “Coragem, Viva!” não nasceu de um momento de tristeza.

Nasceu durante uma paixão.

Ele conta que vivia aquela fase inicial de um relacionamento em que tudo parece ganhar intensidade.

“Eu estava naquela fase de um namoro onde estamos completamente apaixonados e levitando. Essa abundância de amor transbordou e me levou a escrever.”

Um texto puxou outro.

Memórias começaram a aparecer.

Entre 2020 e 2026, os escritos foram formando a base do livro.

E, quando chegou a hora de decidir o que realmente entraria nas páginas, apareceu novamente o velho adversário.

O medo.

Alguns episódios causavam constrangimento.

Outros eram dolorosos.

Houve momentos em que Bruno se perguntou se deveria mesmo publicar determinadas passagens.

Foi então que aplicou uma regra que criou para a própria vida: “Se estou com frio na barriga, é um bom sinal.”

Para ele, o desconforto se transformou em uma espécie de marcador.

“É sinal de que estou no caminho correto e que preciso vencer aquele medo, praticar a coragem e avançar.”

Escrever também foi uma linha de chegada

Quando terminou o livro, Bruno percebeu que não havia apenas organizado acontecimentos.

A escrita havia feito com suas memórias algo semelhante ao que a corrida fizera com seu corpo.

Obrigou-o a olhar novamente.

Reavaliar e iInterpretar.

Ele diz ter encontrado novos aprendizados até em situações que acreditava já compreender completamente.

“Aprendi coisas gigantes de episódios que achei que já tinha aprendido tudo.”

Por isso, hoje recomenda a experiência da escrita mesmo para quem nunca imaginou publicar um livro.

“Todos somos escritores da nossa própria história.”

Agora falta o sub-3h

Bruno já completou dez maratonas.

Está inscrito para a 11ª e a 12ª.

Mas existe um número que ainda o desafia.

2h59min59s.

Seu sonho agora é correr uma maratona abaixo das três horas.

Não como ponto final.

Muito pelo contrário.

“O sonho é chegar no sub-3h. Na vida e na maratona é chegar no próximo recorde, na próxima marca e, quando chegar, começar tudo de novo.”

Essa seria justamente aí a diferença entre o Bruno que entrou naquele ônibus em São Paulo e o corredor que fez 3h09 em Lima. Na primeira tentativa, ele acreditava que bastava querer muito.

Hoje sabe que não. “É preciso construir, treinar, errar, corrigir, ter paciência, voltar depois da frustração e continuar.”

O homem que um dia foi levado embora pelo ônibus dos desistentes agora corre atrás de menos de três horas. Mas “Coragem, Viva!” mostra que a distância mais importante percorrida por Bruno, de repente, nunca tenha sido exatamente de 42 quilômetros.

Foi aquela entre o homem que tentou se esconder da vida e o menino de seis anos que não teve medo de se posicionar.

E, nessa corrida, a linha de chegada ainda continua mudando de lugar, foi, justamente, esse percurso que acabou virando livro.

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