Golfe não é só tacada: uma partida pode passar dos 10 km

Foto: Luciano Muta

Grupo de 18 mulheres em Campo Grande encontrou no golfe uma atividade que mistura caminhada, concentração, estratégia e amizade

Para quem nunca jogou golfe, talvez a primeira imagem seja aquela clássica: uma pessoa parada diante da bola, concentração absoluta, uma tacada e pronto.

Só que existe muita coisa entre uma tacada e outra.

Em uma partida completa de 18 buracos, uma jogadora pode caminhar entre oito e dez quilômetros pelo campo. São aproximadamente quatro horas de atividade, escolhendo tacos, analisando distâncias, enfrentando obstáculos e tentando colocar uma pequena bola dentro do buraco com o menor número possível de golpes.

Foi uma das coisas que mais me surpreendeu ao conhecer um pouco melhor o esporte.

Golfe também é caminhada.

E, para um grupo de mulheres de Campo Grande, virou ainda amizade, diversão, desafio e uma boa maneira de esquecer por algumas horas a correria da vida.

Elas se chamam, carinhosamente, de Monstrinhas do Golfe.

Na Pandemia nasceu a paixão pelo golfe

A Shiatsu Terapeuta e Acupunturista Patrícia Iasuda começou a jogar em 2020, durante a pandemia. A inspiração estava dentro de casa: o pai, Toshiaki Iasuda, hoje com 84 anos, conhecido por muitos jogadores simplesmente como “Mestre”.

A história começou quase como uma brincadeira. Enquanto os homens jogavam, eram comuns as mensagens das esposas querendo saber quando eles voltariam. “Que horas vocês vão chegar para almoçar?”

Até que Iasuda resolveu ensinar o esporte também às mulheres dos jogadores.

Patrícia entrou na turma e alguém brincou com o professor: “Iasuda, você está criando monstrinhas.”

O apelido ficou e as monstrinhas cresceram.

Hoje elas treinam em horários diferentes, conforme a disponibilidade de cada uma, encontram-se para jogar e ainda têm um torneio feminino no início de cada mês, com direito a espumante depois da disputa.

Patrícia nunca mais abandonou o esporte. “Virou um vício”, resume.

E não demorou para aquela brincadeira familiar atravessar os limites de Mato Grosso do Sul.

Ela já disputou campeonatos no Rio de Janeiro, na Gávea e em Trancoso, conquistou resultados e passou a jogar também ao lado de atletas de alto nível. “Em algumas competições, as amadoras são sorteadas para formar grupos com golfistas profissionais”, explicar.

Uma disputa contra você mesma

A diretora de golfe, Bernadete Martins Gaspar Rangel, explica que o princípio do jogo é simples de entender.”A missão é levar a bola do ponto inicial até o buraco usando o menor número possível de tacadas.”

O desafio muda a cada buraco. Distância, vento, terreno, obstáculos e posição da bola interferem na decisão. O jogador precisa escolher o taco adequado e pensar na estratégia. Mas, para ela, a parte mais interessante esteja na forma de competir. “Embora exista uma disputa, o golfe é, sobretudo, uma competição de cada pessoa consigo mesma”, explica Bernadete.

A força ajuda, mas está longe de resolver tudo. Técnica, coordenação, equilíbrio, mobilidade, concentração e estratégia pesam muito. “Existe ainda uma espécie de exercício mental permanente.”

Para Bernardete, uma tacada ruim precisa ser esquecida antes da próxima. Uma boa não garante que a seguinte será igual. “O jogo obriga a permanecer no presente.”


A administradora Letícia Maciel Brasil, de 40 anos, começou a jogar golfe em 2025. O esporte já fazia parte do cenário de sua rotina havia algum tempo, já que ela mora no Condomínio Terras do Golfe.

Depois de seis anos vivendo no local, decidiu reservar parte da semana para conhecer melhor a modalidade. Começou as aulas com o professor Pablo de La Rua e, aos poucos, passou a se dedicar cada vez mais à técnica e ao jogo.

Para Letícia, o golfe ganhou um significado bem pessoal.

“É um momento meu, comigo mesma. Durante as partidas, trabalho minha disciplina, confiança e concentração.”

Ela conta que o esporte também se tornou uma forma de se desafiar, perceber a própria evolução e encontrar um tempo de conexão consigo mesma.

Conversa, silêncio e quilômetros de campo

Existe conversa durante a partida? Bastante.

“As jogadoras caminham juntas, contam histórias, riem e acompanham o desempenho umas das outras. Mas, quando alguém se prepara para bater na bola, vem o silêncio”, disse Bernardete.

É uma espécie de acordo natural do esporte: descontração durante o caminho e concentração na hora da tacada.

Em nove buracos, são cerca de duas horas de jogo e aproximadamente cinco quilômetros caminhados.

Nos 18 buracos, a rodada pode chegar a quatro horas e a caminhada variar entre oito e dez quilômetros.

Sem corrida e sem grandes impactos, mas longe do sedentarismo. “Fisicamente, sentimos que praticamos uma atividade completa. Mentalmente, geralmente saímos mais leves”, conta Bernadete.

Essa é uma das endorfinas particulares do golfe. Durante algumas horas, a preocupação com o cotidiano dá lugar a uma pergunta bem mais simples: onde vai parar a próxima bola?

Quando a bola entra de primeira, existe uma façanha especialmente desejada pelos golfistas: o hole in one.

É quando o jogador dá a primeira tacada de um buraco e a bola vai diretamente para dentro dele. Uma tacada e um buraco.

O “Mestre” Toshiaki Iasuda tem uma história especial para contar: foi dele o primeiro hole in one registrado no campo, segundo a fiha Patrícia.

Não parece difícil quando contado assim.

Experimente acertar uma bolinha de pouco mais de quatro centímetros a dezenas ou até centenas de metros de distância e colocá-la diretamente dentro de um buraco também minúsculo; A perspectiva muda rapidamente.

Amizades que ficaram

Algumas das Monstrinhas já eram amigas antes do esporte.

Muitas se conheceram ali.

Entre quilômetros de caminhada e centenas de tacadas, os vínculos foram crescendo.

Existe competição, claro. Mas a boa jogada de uma adversária também recebe comemoração. “A competição termina no campo; o vínculo permanece”, define Bernadete.

Para quem nunca segurou um taco, segundo ela, essa é uma boa maneira de compreender o golfe.

Você chega imaginando um esporte em que alguém tenta colocar uma bola em um buraco. Depois descobre os quilômetros caminhados, a estratégia, o silêncio antes da tacada, as conversas no percurso, a disputa consigo mesma e as amizades construídas pelo caminho.

Patrícia chegou praticamente por acaso.

Era só uma solução para aquelas mulheres que perguntavam quando os maridos voltariam para o almoço.

Seis anos depois, ela disputa campeonatos pelo Brasil.

O pai queria apenas ensinar algumas mulheres a jogar, acabou criando as Monstrinhas do Golfe.

E elas parecem ter gostado bastante do apelido, é o nome estampado nas competições.

Compartilhe este artigo:

plugins premium WordPress