Eu comecei a correr sem imaginar que aquela decisão mudaria completamente a minha vida.
Naquele momento, minha história profissional seguia um caminho bem diferente do que as pessoas veem hoje. Eu era engenheira eletricista, trabalhava em uma multinacional, tinha uma carreira sólida, boas oportunidades e uma rotina cheia de viagens. Ao mesmo tempo, tinha dois filhos pequenos e uma vida familiar que exigia presença.
Por fora, tudo parecia certo.
Por dentro, algo já começava a não encaixar mais.
Foi nesse período que a corrida apareceu.

Eu sempre gostei de me exercitar e treinava em um estúdio de musculação. O professor que me acompanhava tinha um pequeno grupo de corrida que se reunia no parque e um dia me convidou para participar. Aceitei quase sem pensar muito, imaginando que seria apenas mais um exercício para variar o treino.
No começo, correr parecia impossível.
Uma volta no lago do parque já me deixava sem fôlego. Eu olhava para as pessoas que conseguiam correr uma volta inteira e pensava como aquilo era possível.
Mas quem corre sabe: a corrida vai entrando na nossa vida devagar.
Primeiro você corre alguns minutos a mais.
Depois completa seus primeiros 5 quilômetros.
Participa de uma prova.
Recebe a primeira medalha.
Quando percebe, já está completamente envolvido.
Comigo foi exatamente assim.

Eu sempre gostei de metas e desafios, e a corrida trouxe isso de forma muito clara. Cada treino era um pequeno passo de evolução. Cada distância conquistada mostrava que era possível ir um pouco além.
Vieram os 10 km.
Depois a meia maratona.
E então surgiu aquela pergunta que, cedo ou tarde, aparece na cabeça de muitos corredores:
Será que eu consigo correr uma maratona?
Quem nunca treinou para 42 km talvez não imagine o que isso significa. Uma maratona exige meses de preparação. Treinos organizados, disciplina, recuperação, estratégia e muita consistência.
Foi durante essa preparação que surgiu outra questão importante.
Eu precisava de uma nutricionista que entendesse de corrida para me acompanhar nessa jornada. Comecei a procurar profissionais em Campo Grande… e não encontrei.

Na época, muitos corredores precisavam viajar para São Paulo para conseguir esse tipo de acompanhamento. Consultas online ainda não existiam.
E foi ali que algo começou a fazer sentido.
Ao mesmo tempo em que eu estava cada vez mais apaixonada pelo universo da corrida, também vivia um momento de questionamento profissional. Minha carreira era estável e reconhecida, mas a rotina já não combinava com a vida que eu desejava construir.
Naquele momento percebi duas coisas muito claras.
Eu amava aquele universo.
E existia uma necessidade real de profissionais especializados naquela área.

Tomar a decisão não foi simples.
Deixar um emprego de mais de dez anos em uma multinacional, com estabilidade e um bom salário, para começar uma nova carreira aos 42 anos parecia arriscado demais para muita gente.
Mesmo assim, foi exatamente o que eu fiz.
Voltei para a faculdade e comecei uma nova formação em Nutrição. Durante quatro anos conciliei estudos, família e treinos de maratona.
Olhar para trás hoje me faz perceber que mudar de carreira foi muito parecido com treinar para uma maratona.
Quando alguém decide correr 42 quilômetros, sabe que o resultado não aparece de um dia para o outro. São meses de preparação silenciosa, muitos treinos simples repetidos semana após semana.

Na vida acontece exatamente a mesma coisa.
Grandes conquistas são construídas com pequenas decisões consistentes ao longo do tempo.
A corrida também ensina que o caminho não é linear. Existem treinos difíceis, dias em que o corpo não responde, momentos de cansaço e até lesões que obrigam a diminuir o ritmo.
Quem corre aprende algo importante: ajustar o plano faz parte do processo.
Às vezes é preciso desacelerar, cuidar do corpo e reorganizar o caminho para continuar evoluindo.
Talvez por isso a corrida tenha um poder tão grande de transformação. Ela muda o corpo, mas também muda a forma como enxergamos desafios, disciplina e persistência.

Hoje a corrida já me levou a lugares que eu nunca imaginei conhecer.
Tive a oportunidade de correr as seis maiores maratonas do mundo — Berlim, Nova York, Boston, Chicago, Londres e Tóquio — experiências que marcaram profundamente a minha trajetória como atleta e profissional.
Mas talvez a maior lição da maratona seja outra.
Grandes sonhos parecem distantes no começo.
Até o dia em que você decide dar o primeiro passo.
Porque, no fim das contas, é assim que todas as grandes jornadas começam.
Com um passo.
Depois outro.

E, quando você percebe, já está muito mais longe do que imaginava ser possível.













