Existe um inimigo silencioso na corrida.
E, muitas vezes, ele somos nós mesmos.
Nos bastidores da entrevista com o treinador da Top Run e maratonista Diego Arruda para o Papo Endorfina, tivemos uma conversa sincera sobre algo que talvez muitos corredores amadores estejam vivendo sem perceber: a incapacidade de se sentir satisfeito.
A corrida se popularizou. Cresceu. Ganhou as redes sociais, os grupos de WhatsApp, os relógios inteligentes, as planilhas coloridas e os vídeos motivacionais. E isso é maravilhoso. Mais pessoas estão saindo do sedentarismo, descobrindo o prazer de correr e encontrando saúde física e mental no esporte.
Mas, ao mesmo tempo, parece que tudo virou urgência.
O corredor que ontem comemorava conseguir concluir 5 quilômetros, hoje já se culpa porque o pace não baixou. Aquele que finalmente fez uma prova inteira no pace 6 logo escuta do colega: “Agora bora buscar pace 5”. Quem fez 10 quilômetros quer 21. Quem fez 21 quer 42. Quem corre uma maratona quer índice. Quem conquista o índice quer pódio. E, sem perceber, muita gente transforma uma atividade que nasceu como liberdade em uma prisão emocional.
Talvez porque vivemos em uma era de comparação constante.
Sempre existe alguém correndo mais rápido, mais longe, com um tênis melhor, um corpo melhor ou uma medalha maior.
E foi justamente sobre isso que Diego Arruda falou comigo.

Maratonista, treinador e hoje também coach, Diego decidiu estudar comportamento porque percebeu que muitos dos seus alunos enfrentavam o mesmo adversário que ele próprio já enfrentou: o próprio “eu”.
A autocobrança excessiva.
A sensação de nunca ser suficiente.
A dificuldade de simplesmente aproveitar a corrida.
Durante nossa conversa, ele compartilhou uma frase que ouviu e que mudou sua relação com o esporte:
“Faça da melhor forma possível, com amor. Os resultados acontecem, mas não se cobre tanto. Se cobrar demais vira um peso e a corrida não deve ser um peso para ninguém.”
Confesso que aquilo me atravessou, porque eu também sou essa corredora que sempre quer mais.

Sou jornalista. Contadora de histórias. Maratonista por cinco vezes. Apaixonada pela corrida. E talvez exatamente por amar tanto esse universo eu entenda como é fácil ultrapassar a linha do prazer e entrar na zona da cobrança.
A gente quer melhorar sempre.
Mais quilômetros, resistência, performance e evolução.
Só que existe uma pergunta importante: em qual momento deixamos de celebrar o caminho?
Diego conta que precisou dar um tempo das maratonas quando percebeu que a cobrança estava pesada demais. Depois, mais tranquilo, voltou ao esporte de outra forma: com acompanhamento multidisciplinar, com maturidade e, principalmente, com leveza.
Neste ano, correu Boston ao lado da família. Não com a obsessão do resultado. Mas com o desejo de viver a experiência.

Talvez seja exatamente isso que muita gente esteja esquecendo.
A corrida não precisa ser sofrimento para valer a pena.
Não precisa destruir para transformar, nem precisa adoecer para gerar resultado.
Correr também é sobre alegria. “É saúde, encontrar pessoas e vencer pequenos limites invisíveis que ninguém vê além de nós mesmos.”, comentou o Diego.
No fim das contas, pelo nosso bate-papo, talvez o maior pace que precisamos baixar seja o da autocobrança.














