A corrida também escolhe a gente

Hoje foi o primeiro dia da Maratona de Campo Grande: prova de 5k com espetáculo na estreia. O evento, que entrou para o Circuito Brasil Gigante, mostrou logo na largada por que a corrida tem esse poder tão especial de reunir histórias, emoções e pessoas tão diferentes em torno do mesmo movimento.
Eu larguei e fiquei encantada. Era uma multidão. A estimativa é de 5,3 mil inscritos somando todas as modalidades: 5k, corrida infantil, 10k, 21k e 42k. “A Avenida Ricardo Brandão, em frente ao Comper Itanhangá, virou um verdadeiro mar de gente alegre. Daqueles cenários que fazem a gente lembrar que corrida não é só pace, tempo ou distância. Corrida também é encontro, diversão, superação e pertencimento.”
Neste sábado, a procura foi grande especialmente, segundo os organizadores, porque muitos atletas aceitaram o desafio de correr os 5k hoje e voltar amanhã para mais uma prova. Mas, olhando ao redor, dava para perceber que pouca gente estava preocupada apenas com velocidade. O clima era de festa.
Durante o percurso, uma personagem ganhou a atenção de todos: Cleusa Uenaka, de 75 anos. Não havia quem passasse por ela sem querer fazer uma selfie, uma foto ou um vídeo. Eu também não resisti.
Cleusa chamou até a atenção de um nome muito conhecido no mundo runístico, o jornalista Marcel Agarie, do canal Mania de Corrida, que parou para contar a história dela. “Ela saiu de um coma direto para a corrida e, hoje, o filho também segue a mãe”, contou Marcel.
Extrovertido, ele ainda brincava com os corredores, pedindo licença para abrir passagem para Cleusa, que queria acelerar. Foi uma cena leve, bonita e cheia de energia.

Cleusa Uenaka e Marcel Agarie

Amor paterno
A prova parecia um carnaval de tênis, sorrisos e euforia. E, nessa alegria, uma das coisas que mais encontrei foram famílias correndo juntas.
Uma dessas histórias foi a do empresário Rafael Mendes, que correu ao lado da filha, Lara Ferreira Cruz, de 14 anos, em sua segunda prova. “Ela já pegou gosto e vamos continuar correndo”, comentou o pai, orgulhoso.

Um sonho adiado, mas não esquecido
Entre tantas histórias, uma das mais emocionantes foi a da professora Pâmela Romero.
Ela pretendia correr a Maratona de Campo Grande em 2023. Mas, duas semanas depois de fazer a inscrição, recebeu uma notícia que mudou seus planos: estava grávida.
O sonho foi adiado. Mas não abandonado.
Casada com Isidro José, natural de Angola, Pâmela encontrou ainda mais incentivo para treinar. Ele a acompanha nos treinos levando o filho do casal no carrinho.
“Muitas vezes eu treinei com o Bento, quando meu marido não tinha estágio, ele cursa Direito, ou o pessoal da assessoria da Anib ficava com o meu filho. Essa maratona vai entrar para a nossa história. No próximo dia 24, ele completa dois anos de idade e, amanhã, juntos vamos realizar o meu sonho da maratona”, contou Pâmela.
Histórias como essa mostram que a corrida nem sempre começa na largada. Às vezes, ela começa muito antes, na coragem de continuar acreditando.

Pâmela, o marido Isidro José e o pequeno Bento

A primeira vez ninguém esquece
Também encontrei Mirian Moreno, de 27 anos, que trabalha no setor financeiro agropecuário. Ela correu seus primeiros 5k motivada pela amiga Vida Bergamo.
“Eu comecei a correr em fevereiro, mas fiquei um pouco parada. Faz tempo que a gente é amiga e ela foi muito parceira. Me emocionei muito”, disse Mirian.
Vida não deixou a amiga desistir. Durante o percurso, gritava, incentivava, dizia coisas boas e lembrava que a chegada estava logo ali.
Eu mesma fiquei motivada a continuar com as duas e registrei cada momento. No fim, ficaram imagens belíssimas de que a corrida é muito mais do que movimento. Às vezes, ela é a prova viva de uma amizade. “Tá me odiando, mas terminou”, brincou Vida.
E Mirian respondeu com esperança de muitos quilômetros pela frente: “Eu espero correr mais e mais longas distâncias com a Vida.”

Vida Bergamo e a amiga Mirian Moreno

Ser gigante é aceitar o próprio desafio
A organizadora do evento, Kassilene Cardadeiro, resumiu bem o espírito da corrida. “Ontem falaram para mim: ‘Ah, você escolheu trabalhar com aquilo de que gosta’. Eu acho que foi a corrida que me escolheu, porque eu sou do turismo. Mas é muito rico, porque a gente escuta muitas histórias. E a corrida é sobre isso.”
Ela também deixou uma reflexão importante sobre o tema Brasil Gigante. “Será que a gente só é gigante se fizer uma maratona? Eu acho que não. Eu acredito que o desafio que você fizer — seja de 5 quilômetros, 10 quilômetros ou uma maratona — já faz de você alguém gigante.”

Kassilene Cardadeiro, organizadora da Maratona de Campo Grande

E é exatamente isso.
Neste sábado, vi gigantes nos 5k. Vi gigantes caminhando, correndo, sorrindo, insistindo, recomeçando. Vi pais com filhos, amigas se apoiando, corredores experientes celebrando e estreantes descobrindo um novo mundo.
Amanhã, será a minha vez de encarar a minha sétima maratona. Mas hoje, fazendo o que também amo: correr, observar e contar histórias e, neste sábado, eu já vivi uma parte linda dessa festa.
Porque, no fim, a corrida é isso: cada um com sua distância, seu tempo, sua história e sua chegada.
E quando a gente cruza essa linha, entende que o gigante não está apenas na prova. Está dentro da gente. “Só você sabe o que viveu para chegar até aqui”, diz, sempre, a corredora e animadora oficial da Maratona de Campo Grande, Ingrid Ximenez.

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