Quando tudo parecia dizer “não”, Gustavo Almeida insistiu e conquistou sua primeira maratona

Professor de tênis superou lesão, H1N1, rotina pesada e completou os 42 km da Maratona de Campo Grande em 4h16min57s

Tem história que não começa na linha de largada. Começa bem antes, quando tudo parece dar errado. Quando o corpo pede pausa, a rotina aperta, os planos precisam ser refeitos e a dúvida aparece.

Foi assim a estreia de Gustavo Almeida, professor de tênis, nos 42 km da Maratona de Campo Grande.

A tão sonhada medalha dos 42 km e 195 metros não veio de um ciclo perfeito. Veio de um ciclo quebrado, ajustado, reconstruído e vivido com muita dedicação.

Ainda no período de base, quando a preparação começava a ganhar forma, Gustavo sofreu uma fissura no tornozelo durante uma partida de vôlei com amigos. Vieram duas semanas parado, uma tentativa frustrada de retorno e, depois, a descoberta de que havia corrido por duas semanas ainda com a fissura, sem saber.

O plano precisou mudar.

Foram mais seis semanas sem impacto. No meio do caminho, ainda enfrentou uma semana parado por H1N1. Sem poder correr, encontrou no elíptico uma forma de manter o condicionamento: cinco semanas treinando seis vezes por semana no aparelho.

Quando finalmente pôde voltar, sobraram apenas nove semanas de ciclo específico para a maratona.

Pouco tempo. Muitas incertezas. E a necessidade de ajustar não apenas os treinos, mas também as expectativas.

Antes da lesão, a ideia era tentar completar a prova abaixo das quatro horas. Depois de tudo que aconteceu, o plano foi recalculado: terminar abaixo de 4h20min.

Deu certo.

Gustavo cruzou a linha de chegada em 4h16min57s.

“Ser professor de Educação Física fez total diferença. Estudar o treinamento e respeitar o corpo durante o processo foi essencial. Teve muito estudo e muita conversa com vários amigos para chegar no objetivo”, contou.

Do tênis aos 42 km

Diferente de muitos professores da modalidade, Gustavo não cresceu dentro das quadras de tênis. Ele costuma dizer que talvez não tenha encontrado o tênis, mas tenha sido encontrado por ele.

O primeiro contato com esportes de raquete veio na faculdade de Educação Física, por meio do badminton. Depois, no fim de 2010, ganhou um curso da Confederação Brasileira de Tênis para formação de professores. Saiu do curso empregado e nunca mais parou.

A corrida entrou na vida dele em 2011, levado pelo cunhado, que trabalhava em uma assessoria. Por muito tempo, foi um hobby constante. Até a pandemia, os 10 km eram sua maior distância.

A mudança começou em janeiro de 2024, quando decidiu correr seus primeiros 15 km na Corrida do Pantanal. Junto com o novo desafio, vieram 15 quilos eliminados, mais estudos sobre treinamento e o desejo de correr cada vez mais longe.

Em novembro de 2024, veio a primeira meia maratona.
Nesse período, começou o desejo de ter o seu próprio grupo de assessoria de corrida e, em janeiro do ano seguinte, nasceu o GT Run Assessoria. “Os meus primeiros alunos foram os familiares, minha esposa, meu cunhado e amigos”, comentou.

Assim, passou a ganhar novos objetivos. Dedicou-se em 2025 aos 21 km, com quatro provas-alvo, a maratona deixou de ser uma ideia distante e passou a ser um objetivo real.

“Quando quebrei a barreira dos 11 km pela primeira vez, senti que tinha alguma coisa pelas longas distâncias. Aí vieram os 15, os 21 e agora, depois de mais de dois anos e meio, os primeiros 42.”

Uma prova para ser sentida

Para Gustavo, a maratona não é apenas uma distância. É uma experiência que precisa ser vivida e sentida.

A largada emocionou. A torcida de pessoas desconhecidas no percurso emocionou. Cruzar ou encontrar alunos durante a prova emocionou. O quilômetro 41 teve um peso especial.

Mas a chegada reuniu tudo isso.

“A chegada é o sonho realizado. Emoção pura. Mostra que podemos muito mais do que imaginamos. É sentimento de dever cumprido e muita, muita gratidão.”

Durante a prova, o corpo respondeu melhor do que ele esperava. O cansaço e o peso apareceram com mais força a partir do quilômetro 35. Do 33 em diante, cada quilômetro era um passo rumo ao desconhecido.

Nos quilômetros finais, passou pela cabeça a vontade de chorar de alegria e agradecer pela oportunidade de realizar aquele objetivo.

“A maratona, além de ser vivida, precisa ser sentida”, resumiu.

Família, amigos e alunos fizeram parte da medalha

Nenhuma maratona é feita sozinho. Gustavo sabe disso.

Conciliar treinos, trabalho, família, poucas horas de sono e vários compromissos foi uma das partes mais difíceis da preparação. Por isso, ele faz questão de dividir a conquista com quem esteve ao lado durante o processo.

“Conciliar treinos, trabalho e família é um desafio enorme. Agradeço enormemente a cada um que torceu, apoiou e entendeu o momento.”

Ele também agradeceu aos alunos e pediu desculpas aos integrantes da GTRun pela atenção que não conseguiu dar durante a prova. Mesmo assim, reforçou que cada incentivo recebido no percurso fez diferença.

O que o tênis e a maratona têm em comum

Como professor de tênis e educador físico, Gustavo enxerga uma ligação forte entre as quadras e as longas distâncias.

Nos dois esportes, disciplina, rotina e repetição são indispensáveis. A exigência física é alta, mas o cuidado com o corpo também precisa ser constante. Um descuido com fortalecimento, recuperação ou treinos mal executados pode custar caro.

“Falando em tênis e maratona: além da exigência física, a rotina e a repetição são aliados inseparáveis dos dois esportes. Qualquer vacilo com fortalecimento ou treinos mal feitos pode custar uma lesão e te tirar de combate. A resiliência que ambos trazem faz muita diferença.”

O conselho de quem chegou lá

Depois de viver sua primeira maratona, Gustavo deixa um recado importante para quem sonha em correr os 42 km: não tenha pressa.

“Não faça por pressão ou por vontade dos outros. Precisa querer muito e estar disposto a pagar o preço do ciclo. A minha primeira demorou dois anos e meio constantes de treinos, com um ano inteiro dedicado aos 21 km. Se a sua demorar quatro, cinco ou dez anos, sem pressa. Vai no seu tempo.”

A maior lição, segundo ele, foi perceber que podemos muito mais do que imaginamos. Mas também entender que objetivos exigem disciplina, rotina e sacrifícios.

Sem isso, continuam sendo apenas objetivos.

Só a primeira

A estreia na Maratona de Campo Grande não fechou um ciclo. Abriu outro.

“Com certeza foi só a primeira. Pelo menos uma por ano vai ter que acontecer.”

O próximo desafio já está no radar. No fim do mês, Gustavo volta para a pista em uma prova de 10 km. Para o segundo semestre, o foco será recuperar a velocidade que a lesão no tornozelo levou embora.

Ele também tem vontade de participar de uma prova com o Pernas Solidárias.

Ao resumir sua primeira maratona em uma palavra, Gustavo escolheu: dedicação.

“Eu sonhei e vivi essa prova quilômetro por quilômetro.”

E talvez seja essa a melhor imagem da sua estreia: um professor de tênis que, mesmo quando tudo parecia dizer que não daria, ajustou o plano, respeitou o corpo, insistiu no processo e chegou ao fim dos 42 km e 195 metros com a medalha no peito e a certeza de que a primeira maratona nunca será esquecida.

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