Na 100ª narração, Átilla Eugênio descobre que algumas palavras também sabem cuidar

No fim de semana do Dia dos Pais, comunicador chegou à centésima corrida narrada cercado pela mãe, pelo filho e por centenas de atletas que encontraram em sua voz um incentivo para chegar

Antes de Átilla Eugênio completar o marco de sua centésima narração em uma corrida de rua, quem cruzou uma linha de chegada foi o filho Théo Eugênio, na corrida kids da prova do Sicredi, neste sábado (08/08), em Campo Grande.

Era o primeiro presente de um fim de semana que ganharia um significado ainda maior por anteceder o Dia dos Pais.

Lá, também estava dona Maria Alves, mãe de Átilla. Orgulhosa, acompanhava o filho trabalhando e o neto correndo. Nem durante a premiação, já quase 21h, ela não perdeu a animação. “É uma emoção que não cabe em palavras. É muita paixão, muita alegria e, acima de tudo, um orgulho imenso de ver o filho.”

Dona Maria resumiu boa parte daquela noite. Afinal, a centésima prova de Átilla não foi apenas sobre um narrador diante de um microfone. Havia muitos cuidados envolvidos naqueles momentos.

Uma voz na reta final

Centenas de atletas participaram das provas de 5 e 10 quilômetros, da caminhada de 3 quilômetros e da corrida kids. Todos ouviram o Átilla Eugênio.

Na largada, ele estava lá para lembrar que cada pessoa tinha sua própria corrida pela frente. Na chegada, para dizer que essa pessoa havia conseguido.

Entre aqueles corredores estava Ana Cláudia Cubilha, de 46 anos, servidora estadual da Ouvidoria do SUS. Chegou radiante em sua segunda prova de 10 quilômetros.

Ana corria antes da gravidez, ficou um período afastada do esporte e retomou os treinos com mais dedicação no ano passado. Ela temia enfrentar os 10 quilômetros naquela noite. “Eu não ia correr os 10 km por questão de preparo, mas minha inscrição era de 10. Então eu fui.”

No fim do percurso, cansada e já próxima da chegada, alguma coisa mudou.

“Quando estava chegando na reta final, comecei a escutar a voz do Átilla parabenizando todo mundo que estava chegando. Ouvir ele incentivando todos fez um diferencial. Quando ouvi a voz dele, me deu mais força para cruzar a linha de chegada.”

Ana terminou de braços erguidos com Átilla Eugênio e bateu seu recorde pessoal nos 10 quilômetros: 01h20”.

É por histórias assim que Átilla entende o significado do trabalho que escolheu fazer.

Às vezes, é a única voz

Nas 100 provas que narrou, ele percebeu algo que talvez nenhuma formação em comunicação pudesse ensinar. “Às vezes, existe uma pessoa correndo sozinha. A família não foi. Os amigos não estão o esperando na chegada”, comentou.

E, naquele momento, a voz que sai do sistema de som pode ser a única dizendo: Você consegue. “Às vezes, você pode ser a única voz que aquela pessoa tem para escutar durante uma corrida. Ela não vai com a família, não vai com um amigo, está sozinha na prova e, naquele momento, tem você para dizer que ela venceu, para dar os parabéns. Isso é muito forte.”

Antes de cada corrida, Átilla faz uma oração.
“Eu sempre peço para que eu possa ser a voz de Deus na vida das pessoas.”

É uma frase que ganha outro sentido neste Dia dos Pais.
Para Átilla, que perdeu o seu pai jovem, cuidar nem sempre significa resolver o caminho de alguém. “É dizer que ainda falta pouco. É acreditar quando o outro começa a duvidar. É emprestar coragem”, comentou o comunicador.

Da casa ao coração

Átilla Eugênio conhece bem o reconhecimento do público. Foram 19 anos de TV Morena, afiliada da Rede Globo em Mato Grosso do Sul, além de uma passagem pela TV Centro América, em Mato Grosso.

Durante muitos anos, viveu aquilo que é sonho de tantos profissionais da comunicação: entrar diariamente na casa das pessoas pela televisão.

Generoso, Átilla fala dessa trajetória com gratidão. “Quando alguém brinca comigo e diz: ‘Eu te conheço de algum lugar’, eu respondo: ‘É porque eu fui à sua casa. Eu tive a oportunidade de visitar você’.”

Mas as corridas lhe apresentaram outra forma de comunicação, mais próxima e sem a distância da tela. “Eu deixei de entrar no lar das pessoas todos os dias, apresentando um programa de esportes, para entrar no coração delas durante uma corrida.”

Essa a grande história por trás da centésima narração, não são cem microfones ligados.

São cem oportunidades de olhar para alguém que acaba de atravessar uma batalha particular e reconhecer sua vitória. “Quando olho diretamente para uma pessoa e digo que ela é incrível, que ela conseguiu, que só ela sabe o que passou para estar ali cruzando aquela linha de chegada, existe uma conexão diferente.”

Algumas dessas pessoas voltam depois, mandam mensagens e contam que se lembram exatamente do que ouviram naquele instante. Uma delas escreveu algo que Átilla diz carregar consigo: “Você já parou para pensar que, às vezes, você é a única voz que aquela pessoa tem para colocar a turma para cima?”

Três gerações diante da mesma chegada; presente neste Dia dos Pais

Na centésima prova do Átilla havia uma cena difícil de planejar, mas bonita demais para passar despercebida.

Maria observava Átilla e Átilla observava Théo e Théo começava a construir suas próprias lembranças.

Uma mãe orgulhosa do filho e um pai orgulhoso do filho. E, entre eles, centenas de pessoas sendo incentivadas por esse mesmo homem a continuarem seguindo em frente.
Para Maria Alves, a paternidade seja um pouco disso. “Recebemos uma voz antes de aprendermos a usar a nossa. Primeiro alguém diz: Vai, você consegue”, disse, relembrando a sua própria história para cuidar do seu filho único, Átilla.

Com o tempo, segundo ela, somos nós que passamos a repetir essas palavras para quem vem depois. Átilla chegou à sua centésima narração dizendo que ainda tem muito a aprender. “Cada corrida ainda tem algo para me ensinar. Tenho algo para prestar atenção, algo para melhorar.”

Então, cem é apenas um marco que começou há três anos, motivado pelo empresário Carlos Porto, da Bolt Realizações. “Sou muito grato ao Carlos Porto e cada largada sempre será diferente, cada chegada carregará uma história”, disse.

Nada prova, o participante terá travado uma batalha que o narrador provavelmente desconhece. Mas, se depender de Átilla, haverá algo que ele poderá oferecer. “Uma palavra. Um sorriso. Um olhar. Uma mão estendida depois da linha.”

Neste Dia dos Pais, fica uma lembrança que ultrapassa o esporte: há muitas maneiras de cuidar de alguém. Uma delas é fazer com que, justamente quando essa pessoa pensa que não consegue mais, ela escute uma voz dizendo: “Você vai dar conta. Você vai conseguir. Vai no seu ritmo.”

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