Chris Novaes revela de onde vem a força para correr
“A corrida é muito mais que esporte. Me dá luz. Eu corro para ser melhor pelos meus filhos (Caio, de 16, e Miguel, de 14). Tudo o que faço — dores e delícias — converto em aprendizado para eles.
Eu não conseguia correr 5 km e já fiz prova de 250 km. Se hoje você não consegue, não significa que nunca vai conseguir. Depende de você. Correr e ser mãe são as duas coisas que eu mais amo. Acho que eu vim para isso.”
Quem encontra a ultramaratonista, advogada Christiane Novaes, de 48 anos, pelas ruas ou provas, não imagina que ela não nasceu correndo.
Não foi atleta na infância.
Era sedentária, fumava e só queria emagrecer depois da gravidez.
Hoje, já enfrentou maratonas, provas de 42 km subindo serra, desafios de 24, 48 horas e até 250 km. Conquistou índice para Boston. Corre mais de 70 km por semana — mesmo sem prova marcada.

Mas o mais impressionante não é a distância. É o que a corrida construiu dentro dela. “Então, isso pra mim é o que me traz lucidez pra vida. É você encontrar um sentido profundo.”
Nesta entrevista, Christiane Novaes fala sobre maternidade, disciplina, maturidade depois dos 40, lesões, superações e o verdadeiro sentido por trás das provas que muitos chamariam de “loucura”.
Se você acha que não nasceu para correr, talvez essa leitura seja exatamente para você.
Quando despertou em você a atividade física? Você já nasceu correndo?
Não! Eu não tenho histórico esportivo na infância. Fiz balé, piano e, na faculdade, capoeira por uns quatro anos. Depois parei. Era sedentária, fumava muito e não fazia nenhuma atividade física.
Depois que me casei, comentei com o Fábio que precisava emagrecer. Ele disse: “É a quarta vez que você fala isso e não faz nada”. Aquilo me despertou. Comecei a malhar, mas ainda fumava e tinha uma vida bem boêmia.
Em 2008, quando engravidei do Caio, parei de fumar de vez. Em 2009, comecei a correr com um professor no Parque das Nações para perder o peso da gestação. Ele disse que eu tinha perfil de fundista, eu nem sabia o que era isso. Só queria correr 5 km sem parar.
No fim daquele ano fiz minha primeira prova de 5 km e me apaixonei pela vibe. Em 2010 entrei no Grupo Runners com o objetivo simples: correr 5 km sem parar.
Quando você começou a aumentar as distâncias?
No começo fazia só 5 e 10 km aqui em Campo Grande. No fim de 2010 fui à Pampulha com o grupo, voltei lesionada porque ainda não tinha muita base e corri 18km.
Em fevereiro de 2011 fiz minha primeira meia em São Paulo. Em abril fiz a Meia da Ponte (Niterói–Rio). Depois engravidei novamente e fiquei um tempo parada.
Eu já pensava: “Agora quero uma maratona”. Via o seu Nilo treinando 40, 50 km e queria aquilo para mim. Em 2013, depois que o Miguel nasceu, fiz minha primeira maratona.
Como foi sua primeira maratona?
Foi em 2013, em Curitiba. Fui com o senhor Nilo. Ele até reduziu a prova dele para 10 km para poder dirigir na volta. Foi muito especial.
Eu agradeço muito ao Diego, da Runners. Ele nunca criava pânico nem dizia que a prova era difícil. Só dizia: “Treina que você consegue”. A filosofia era simples: treinando, você faz qualquer coisa.
E depois disso?
Depois de Curitiba, fiz a Maratona do Rio três anos seguidos (2014, 2015 e 2016).
Em 2017 fiz a Serra do Rio do Rastro nos 42 km. Fui chamada da lista de espera. Ali começou minha paixão por provas “diferentes”, desafiadoras, que quase ninguém quer fazer. É uma prova em que você basicamente sobe a serra caminhando. É asfalto, não trilha. Eu gosto de asfalto e estradão.

Você não teve medo de fazer provas tão difíceis?
Não, porque são provas extremamente organizadas e estruturadas. Pela dificuldade, exigem muita organização.
É caro participar dessas provas?
Sim. São provas caras. Envolvem passagem aérea, hospedagem, aluguel de carro. A Serra do Rio do Rastro, por exemplo, é um trampo, porque a gente vai de avião até Florianópolis. Alugamos o carro em Floripa Para ir para “Criciúma”. A gente aluga o ônibus para ir de Criciúma até a largada, que é em Treviso.
É uma maratona pra chegar lá.
Como conseguiu conciliar com filhos e marido?
Sempre tive apoio total do Fábio. Nós dois somos do esporte. Eu tenho minhas viagens e ele tem os campeonatos de futevôlei. Sempre nos apoiamos.
Os meninos participam de tudo. Desde os testes de alimentação até os treinos longos. Eles acompanham o processo inteiro.



Seus treinos exigem investimento?
Sim. Como eu não simulo exatamente o que vou enfrentar na prova, às vezes preciso de apoio de carro, principalmente em treinos no Inferninho, que é perigoso. Como nas provas há estrutura de apoio, eu treino da mesma forma.
Mesmo sem prova marcada, você mantém o volume?
Sim. Hoje eu fecho semanas com mais de 70 km, mesmo sem prova marcada. O foco não é só o longo de sábado, mas o volume semanal inteiro.
Meu treinador diz que o longo tem a mesma importância que qualquer outro treino. O que constrói o longo é a semana inteira: tiros, rampas, rodagem.
Como escolheu seus treinadores?
Em 2017 comecei a treinar com João Paulo para a Serra. Depois conheci Marcelo Rocha, conhecido como “carteiro, rei da serra”. Ele montou assessoria e comecei a treinar com ele, com quem eu continuo até hoje.
Já precisou parar por lesão?
Sim. No ano passado fiz uma cirurgia no pé por causa de uma deformidade causada por depósito de cálcio no calcanhar, tentando proteger o tendão de Aquiles. Fiquei seis meses parada.
Quando te chamam de “louca da corrida”, você se acha insana?
Não. Pelo contrário. Nessas provas longas eu encontro lucidez. É onde me curo, evoluo e me restabeleço. Para mim, isso é encontrar sentido.

Depois dos 40 (quase 50), sente diferença?
Sim. Sinto diferença na velocidade. Velocidade me machuca mais. Posso correr 100 km e repetir no dia seguinte. Mas correr 10 km forte me destrói.
E a distância?
Com maturidade, a distância fica mais natural. A maturidade ajuda a controlar a ansiedade. Muitos grandes corredores começam nas provas curtas e depois migram para a maratona. Acho que isso é característico da maturidade.
Como foi conquistar o índice de Boston em Campo Grande?
Foi difícil. Fiz 3h45 em Campo Grande. Depois, em São Paulo, fiz 3h38. As duas provas são difíceis.
Você pretende fazer uma major?
Tenho vontade de fazer Nova York. Dizem que é uma prova dura e muito divertida, com apoio popular incrível. Tenho vontade por isso.
Você incentiva as pessoas a correr?
Muito! Quando falo de corrida, não paro mais.
A corrida é muito mais que esporte. Me dá luz. Eu corro para ser melhor pelos meus filhos. Tudo o que faço — dores e delícias — converto em aprendizado para eles.
Eu não conseguia correr 5 km e já fiz prova de 250 km. Se hoje você não consegue, não significa que nunca vai conseguir. Depende de você.
Correr e ser mãe são as duas coisas que eu mais amo. Acho que eu vim para isso.













