Conexão que revigora

Cláudia Gaigher. Jornalista e autora do livro "Diário de uma Repórter no Pantanal".

O chão coberto de folhas úmidas era o caminho. As grandes árvores fechavam o dossel e deixavam no ar o aroma ocre de matéria orgânica em decomposição misturado com a umidade  da floresta. O Canto do Tiê-sangue ecoava entre ao farfalhar dos galhos, um sinal de que o lugar tem dono. Sou cria da Mata Atlântica, nasci no Espírito Santo e em casa era tradição passear na floresta, sair para conhecer cachoeiras, passar horas na areia da praia conversando e pescando, acampar em locais remotos. Desde criança aprendi a silenciar a alma e escutar os sons da vida, seja ao esperar o sol nascer, ou me encantar com o crepúsculo ou simplesmente para entender pelos sons quais são os seres que habitavam aqueles lugares. Papai e mamãe estimulavam isso entre os três filhos. Observar, apreciar, se encantar…. Aproveitar de verdade cada momento juntos e em contato com a natureza.  Meus pais criaram a mim e aos meus irmãos com esse amor à vida ao ar livre e a natureza. Não tínhamos condições de fazer viagens ou explorar grandes cidades, nosso mundo de descobertas era o entorno nas montanhas e praias capixabas e nas fazendas dos amigos.

Convívio com a Natureza. (Foto: Arquivo Pessoal)

Cresci assim, com os meus pais nos levando todos os finais de semana para alguma “expedição” no mato. Eram aventuras aguardadas com ansiedade. Eu, menina ainda, a caçula de dois irmãos mais velhos, não tinha regalias: caminhava nas trilhas como todos, aprendi a nadar no rio e pegava onda com os mais velhos sem medo do oceano.

O que o mundo hoje chama de sustentabilidade, eu aprendi por instinto com os ensinamentos e o modo de vida dos meus pais.  Viver em harmonia com os outros seres que compartilhamos o Planeta.

O que me desperta?

Eu preciso de conexão, me sentir parte. Todos os dias, mesmo quando estou na cidade, ao abrir meus olhos, além de agradecer por mais um amanhecer com saúde, corro para a janela ou sacada e olho o céu. É quase automática a busca por sentir o sol aquecer a minha pele. O “meu” céu azul centro oeste há mais de duas décadas conquistou o meu coração.

Os elementos da natureza são como peças que completam a minha essência, preciso estar em contato para ser inteira. Sem sol, sem céu, sem água, sem mato, sem bichos não sobrevivo, murcho como plantas sem rega…

Cláudia Gaigher. (Foto: Arquivo Pessoal)

Sempre fui assim, a menina que subia nos muros dos vizinhos para alcançar as mangueiras e colher uma bela manga madura. Na minha infância em Cachoeiro de Itapemirim, a criançada podia brincar na rua sem medo e a vizinhança se conhecia e se protegia. Eu e os meus irmãos mapeamos os quintais alheios e sabíamos exatamente qual fruta estava madura e em qual estação. Daí era só tocar a campainha e pedir pra subir no pé de Jaboticaba do Padrinho Jader, catar pinha na tia Mimi, pegar mangas no Dodote, Abiu no seu Pedro e por ai vai. Tive uma infância do século passado onde essa convivência com toque familiar ainda era possível. E era o que alegrava a nossa infância.

A vida adulta me deu asas para alçar vôos mais longos e distantes. Profissionalmente pude conhecer biomas, pessoas, lugares que sempre me remetiam à essa vocação: olhar o mundo com olhos de ver, com olhos de poesia. Tudo sempre tem o gosto de primeira vez, aquele encantamento que cultivo sempre. Seja ao ver uma borboleta numa flor no parque na cidade, seja por observar as aves urbanas ou me embrenhar na Amazônia e o Pantanal.

Mergulho no Pantanal. (Foto: Arquivo Pessoal)

Foi com esse olhar de amor à primeira vista que eu enxerguei o Pantanal. O ano era 1998, eu vim pela TV Globo do Rio de Janeiro para assumir a vaga de repórter de rede nacional em Mato Grosso do Sul tendo a tv Morena como base. Eu jamais tinha pisado no Centro Oeste do Brasil. A primeira reportagem no Pantanal foi na Caiman, em Miranda. A pauta era turismo ecológico, era assim que falava na épca. Um turismo de experiência onde os visitantes podiam se conectar com a natureza exuberante do Pantanal e seus animais maravilhosos. Ali senti um fio invisível puxar minha alma como sinal de reconhecimento. Encontrei a minha morada. O aroma dos campos alagados, o canto dos pássaros, o arrulhar das araras azuis, tudo foi tão impactante que senti minha alma explodir, uma alegria silenciosa de quem sabe que pertence à esse lugar. Depois foi a vez de conhecer o Cerrado. A primeira vez nesse bioma foi uma pauta sobre pesca e conservação. Fizemos uma descida pelo rio Coxim até o encontro com o Rio Taquari. Me surpreendi com as corredeiras, a vegetação repleta de árvores com cascas grossas, os sabores de frutos desconhecidos e os vestígios dos exploradores do passado gravados na rocha… Ali entendi o que é a conexão e a interdepedência dos biomas. Um precisa do outro para ser inteiro.

Lançamento do livro “Diário de uma repórter no Pantanal”, escrito por Cláudia e lançado no Senado Federal. (Foto: Arquivo Pessoal)

Estar em contato com a natureza para mim não é passeio, é meio de vida, de sobrevivência mesmo. Sinto a endorfina fluir como um jato de energia subindo pelas minhas entranhas, o gosto, o pulsar do coração, as pupilas se ajustam à luz natural para enxergar a miudezas além da grandiosidade das paisagens. Assim eu sigo. Desde sempre, buscando histórias para compartilhar, tentando ser os olhos do outro nos lugares que visito, levando em cada reportagem, postagem, escrito, um pouco da essência da natureza e muito de mim. Em tempo tão desafiadores, onde a desconexão com o meio ambiente normaliza a devastação, eu sigo assim, com o mesmo olhar daquela menina que no passado esperou os ovos de tartaruga eclodirem na praia, que viu o entardecer na floresta, que se banhou em águas raivosas de rios que nasciam na floresta.  

Compartilhe este artigo:

plugins premium WordPress