Algumas corridas começam com um tiro de largada.
A minha começou em silêncio, dentro de um hospital.
Durante 38 anos, a vida esteve dedicada à educação. Foram décadas em salas de aula, ensinando biologia para jovens que sonhavam entrar na universidade. A rotina era intensa, cheia de perguntas, descobertas e aquela alegria que todo professor conhece: ver o momento em que um aluno finalmente entende algo novo.
Biólogo, biomédico e professor, a ciência sempre fez parte do cotidiano.
Mas em 2015, a ciência deixou de ser apenas assunto de aula. Ela passou a ser uma questão de sobrevivência.
Veio então o diagnóstico de aplasia medular severa, uma doença rara em que a medula óssea deixa de produzir as células sanguíneas responsáveis por manter o corpo funcionando. De repente, tudo aquilo que estava nos livros se tornou profundamente real.
A vida passou a depender de algo simples — e ao mesmo tempo extraordinário. Era preciso um doador de medula óssea.
Quando se chega a esse ponto, a palavra “doador” deixa de ser algo distante. Ela passa a representar esperança. Representa a possibilidade de continuar vivendo, respirando, caminhando e abraçando as pessoas que fazem parte da nossa história.
E um dia, em algum lugar, alguém disse sim.
Quando a vida ganha uma segunda chance
O transplante aconteceu. E com ele veio algo que muitos transplantados descrevem da mesma forma: a sensação de que a vida foi devolvida. Quem passa por essa experiência nunca mais enxerga o mundo da mesma maneira.
Surge inevitavelmente uma pergunta: o que fazer com essa segunda chance?
A resposta veio na forma de gratidão. Dessa gratidão nasceu o Instituto Sangue Bom.
A proposta sempre foi simples: transformar uma experiência pessoal em uma causa coletiva. Mostrar às pessoas que um gesto aparentemente pequeno — doar sangue, cadastrar-se como doador de medula ou autorizar a doação de órgãos — pode mudar completamente o destino de alguém.
Ao longo dos anos, aquilo que começou de forma modesta foi se transformando em um movimento. Desde 2015 já foram realizadas mais de seis mil ações de conscientização sobre doação de sangue, medula óssea e órgãos. Em 2025 foram 638 ações, entre palestras, campanhas, eventos e atividades comunitárias.
Cada encontro, cada conversa e cada campanha têm sempre o mesmo propósito: lembrar que existem milhares de pessoas esperando por uma oportunidade de continuar vivendo.
O dia em que o esporte entrou nessa história
Depois do transplante, o corpo precisou reaprender muitas coisas. Recuperar força, resistência e confiança. Foi nesse processo que o esporte apareceu.
No início, correr era apenas um exercício. Um caminho para reconstruir o corpo e retomar a saúde. Mas aos poucos ficou claro que cada corrida carregava um significado maior. Cada quilômetro percorrido era também uma forma de agradecer.
Hoje as pistas de atletismo, as corridas de rua e as provas de ciclismo fazem parte dessa jornada. Ao longo do caminho surgiram participações em competições nacionais e internacionais voltadas a atletas transplantados. Vieram os Jogos Brasileiros para Transplantados, os Jogos Americanos em Salt Lake City, os Jogos Latino-Americanos na Argentina e também os Jogos Mundiais para Transplantados, em Newcastle/UK.
Algumas medalhas apareceram pelo caminho. Ouro, prata, bronze. Mas a verdade é que, quando alguém que já lutou pela própria vida volta a alinhar em uma largada, o resultado deixa de ser o mais importante. Porque estar ali já é uma vitória enorme.
Desde 2023, a participação em provas acontece praticamente todos os meses. Em 2026, por exemplo, já foram percorridos quilômetros na Corrida de Reis, em Cuiabá, na Corrida 15 km das Praias, em Maceió, e na Corrida do Galo da Madrugada, em Recife. O próximo desafio será a Meia Maratona das Praias, em Guarapari.
Cada linha de chegada carrega algo que vai muito além do esporte. Ela carrega gratidão.

Uma história que não pertence apenas a quem a viveu
Hoje, aos 61 anos, a caminhada continua entre educação, ações sociais, eventos e palestras sobre a importância da doação. Também há atuação como diretor regional Centro-Oeste da Associação Brasileira de Transplantados (ABTX).
Mas essa história nunca foi apenas pessoal. Tudo começou com alguém que provavelmente nunca será conhecido. Uma pessoa comum que, em algum momento da vida, decidiu fazer algo extraordinário: se cadastrar como doador.
Esse gesto silencioso permitiu que uma vida continuasse. Permitiu que um professor voltasse a ensinar. Permitiu que um movimento de conscientização alcançasse milhares de pessoas.
E é por isso que sempre vale lembrar algo muito simples: quando alguém decide se tornar doador, não está apenas salvando uma vida. Às vezes está colocando uma história inteira em movimento.
Uma história que continua correndo por muitos quilômetros… tocando outras pessoas, despertando novas consciências e mostrando que a solidariedade ainda é uma das forças mais poderosas que existem entre nós.













