Quando a natureza nos cultiva por dentro

Como o contato com a natureza e o cultivo de plantas se tornou uma jornada de autoconhecimento

Márcia Chiad. Jornalista, agricultora urbana e criadora do Recanto das Ervas

Durante muito tempo eu não sabia exatamente o que estava procurando. A vida seguia com seus caminhos, responsabilidades e desafios, mas havia em mim uma sensação de que algo precisava nascer.

Foi a terra que começou a me ensinar.

Meu encontro com as plantas não aconteceu de forma planejada. Aos poucos fui me aproximando da horta, das ervas, das sementes pequenas que carregam dentro de si uma força silenciosa. No início era apenas o gesto simples de plantar, regar, observar. Era um jeito que eu encontrei de aliviar as tensões da profissão de jornalista.

Mas logo percebi que aquele movimento era maior do que eu imaginava.

Cuidar de uma planta é aprender sobre tempo. A natureza não se apressa. Ela cresce devagar, folha por folha, raiz por raiz. Quem cultiva precisa aprender a esperar, a observar, a confiar nos processos invisíveis que acontecem debaixo da terra.

Marcia Chiad é jornalista e agricultora urbana. (Foto: Arquivo pessoal)

E nesse tempo da natureza, algo dentro de nós também começa a mudar.

A horta tem uma maneira muito particular de nos ensinar presença. Quando colocamos as mãos na terra, quando sentimos o cheiro das folhas, quando colhemos algo que nasceu ali perto de nós, percebemos que existe uma forma de vida mais simples e verdadeira pulsando ao nosso redor.

O verde nos chama de volta. E eu me conectei profundamente com a minha ancestralidade.

Ao longo dos anos fui percebendo que o contato com as plantas transformava não apenas o espaço, mas também as pessoas que chegavam até ele. Muitas vinham cansadas, atravessadas pelas pressas do mundo. Bastava algum tempo entre as ervas, entre os aromas e as cores da horta, para que algo começasse a se reorganizar por dentro, de trazer à tona as memórias afetivas mais marcantes.

A natureza tem esse poder silencioso.

Ela não explica. Ela não exige. Ela apenas mostra que tudo tem um tempo de germinar, crescer, florescer e depois recolher sua energia para recomeçar.

Recanto das Ervas. (Foto: Arquivo Pessoal)

Foi assim que o Recanto das Ervas nasceu: como um espaço onde a terra pudesse ser cultivada, mas também como um lugar de encontros, de conversas, de aprendizado e de reconexão.

Hoje entendo que plantar uma semente é sempre um gesto de esperança.

Quando colocamos algo na terra, estamos também depositando ali um pedaço do nosso desejo de vida.

E quase sempre, quando menos esperamos, alguma coisa floresce.

Com o tempo fui percebendo que esse contato com a terra não transformava apenas o olhar sobre o mundo. Ele também tocava o corpo e a alma. A ansiedade diminui quando desaceleramos para observar o crescimento de uma planta. A respiração muda quando sentimos o cheiro das ervas frescas. Há uma espécie de cuidado silencioso que acontece quando nos aproximamos do verde. Não é uma cura milagrosa, mas é um caminho de reconexão.

A natureza nos lembra que somos parte dela, que somos natureza e também temos nossos ciclos, nossos tempos de florescer e de recolher. Talvez seja por isso que tantas pessoas se sentem melhor quando chegam perto de uma horta, de um jardim, de uma árvore carregada de frutos. Porque, no fundo, voltar para a natureza é também voltar para casa dentro de nós mesmos.

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