Neurocirurgião Halisson Yoshinari: movimento e hidratação são aliados da saúde cerebral

Especialista que operou Ieda Almeida após a descoberta de um tumor cerebral explica como a atividade física contribui para a recuperação, o bem-estar e a autonomia, especialmente após os 60 anos
Foto: Arquivo pessoal

Médico Halisson Yoshinari (Foto: Arquivo pessoal)

Especialista que operou Ieda Almeida após a descoberta de um tumor cerebral explica como a atividade física contribui para a recuperação, o bem-estar e a autonomia, especialmente após os 60 anos

O médico neurocirurgião, especialista em coluna, Halisson Yoshinari se deparou com um desafio: a advogada Ieda Almeida chegou ao consultório acreditando que seu problema estivesse na coluna. Durante a investigação médica, descobriu algo muito mais sério: um tumor cerebral.

Em 16 de fevereiro de 2024, ela passou por uma cirurgia para retirada do tumor, localizado na base do crânio, uma região delicada pela proximidade com estruturas neurológicas importantes.

Após o procedimento, o médico acompanhou uma transformação na vida da paciente. Aos 61 anos, Ieda voltou a correr, faz pilates terapêutico, musculação, pilota motocicleta e não esconde a felicidade de estar em movimento.

A história foi contada pelo Papo Endorfina na reportagem “Minha vida é viver!”.

Agora, o médico explica o que existe por trás dessa recuperação e por que hábitos aparentemente simples, como praticar exercícios e manter a hidratação, podem fazer diferença na saúde, especialmente depois dos 60 anos.

A recuperação não termina com a cirurgia

Para Halisson, a evolução de Ieda representa uma das grandes satisfações da profissão.

“Foi uma cirurgia complexa, mas felizmente ela apresentou uma evolução muito positiva. O mais gratificante é observar que, além da recuperação cirúrgica, ela conseguiu retomar atividades que antes estavam comprometidas.”

O médico explica que retirar um tumor é uma etapa importante do tratamento, mas nem sempre significa o fim do processo de recuperação.

Pacientes que apresentam comprometimento de força, equilíbrio ou coordenação podem precisar de reabilitação para recuperar funções e reconquistar a autonomia.

É nesse momento que entra uma capacidade do cérebro chamada neuroplasticidade.

Trata-se da capacidade de reorganizar conexões e adaptar seu funcionamento em resposta a estímulos e treinamentos.

“A atividade física e a fisioterapia ajudam a estimular esse processo, permitindo que o paciente recupere funções, desenvolva estratégias de compensação e conquiste maior independência”, explica.

Dependendo de cada caso, a reabilitação pode começar com fisioterapia e avançar gradualmente para pilates, musculação, hidroginástica e outras atividades.

Foi durante esse processo que Ieda ouviu uma orientação que nunca esqueceu:

“A sua cura é movimento.”

A frase ganhou um significado especial para ela. Hoje, o médico esclarece que o movimento, realizado com segurança, auxilia a reabilitação, a recuperação da confiança e a autonomia, mas não substitui o tratamento da doença.

Depois de uma cirurgia cerebral, é possível voltar a correr?

Sim, desde que existam condições clínicas para isso e liberação da equipe médica.

Segundo Halisson, não existe um prazo único para todos os pacientes. O retorno depende do tipo de cirurgia, da recuperação neurológica e das condições físicas de cada pessoa.

Antes da corrida, podem ser necessários exercícios de equilíbrio, fortalecimento muscular e condicionamento cardiovascular.

“A corrida pode ser introduzida quando o paciente apresenta condições neurológicas e físicas adequadas, com força, equilíbrio e coordenação suficientes.”

No caso de Ieda, a orientação foi respeitar os próprios limites. Ela conta que o médico recomendou inicialmente três quilômetros e, depois, permitiu que chegasse a cinco.

Para o neurocirurgião, mais importante do que alcançar uma distância é conseguir manter a atividade com segurança.

“O objetivo não é simplesmente voltar a correr o mais rápido possível, mas voltar com segurança e conseguir manter essa atividade ao longo dos anos.”

Por que a corrida traz uma sensação de felicidade?

Ieda costuma contar que, mesmo nos dias em que acorda desanimada, sente uma diferença no humor depois dos exercícios.

Ela chega a gravar vídeos antes e depois dos treinos para mostrar essa transformação.

Halisson explica que a atividade física provoca mudanças no organismo que podem contribuir para essa sensação.

Durante e após o exercício, entram em ação substâncias como endorfinas e endocanabinoides, relacionadas à modulação da dor, ao relaxamento e ao bem-estar.

A prática regular também contribui para o sono, o controle do estresse e a redução de sintomas de ansiedade e depressão.

Mas existe outro fator que não aparece nos exames.

A satisfação de recuperar a própria independência.

“Quando uma pessoa que enfrentou uma doença grave consegue voltar a correr, andar de moto ou realizar uma atividade que antes parecia impossível, isso representa uma conquista pessoal enorme.”

Para o médico, essa sensação de superação também favorece a autoconfiança.

O movimento também ajuda a preservar a saúde cerebral

Os benefícios dos exercícios não se limitam à reabilitação depois de uma cirurgia.

A atividade física regular é uma importante aliada do envelhecimento saudável.

Halisson explica que o sedentarismo está associado a maior risco de declínio cognitivo e demência.

Movimentar o corpo contribui para a saúde cardiovascular, o controle da pressão arterial e da glicemia, além de favorecer mecanismos relacionados ao funcionamento cerebral.

Um deles envolve o BDNF, proteína importante para a manutenção e a plasticidade das conexões entre os neurônios.

“Considero a atividade física uma das ferramentas não farmacológicas mais importantes que temos para ajudar a preservar a memória, a atenção e outras funções cognitivas durante o envelhecimento.”

Ele faz, porém, uma ressalva: praticar exercícios não garante a prevenção da doença de Alzheimer, embora possa contribuir para reduzir o risco de demência.

Água: um cuidado que o cérebro também precisa

Se o movimento ganhou importância na recuperação de Ieda, a hidratação nunca deixou de fazer parte de sua rotina.

A corredora tem até uma história com suas garrafinhas.

Começou com uma descartável, passou por uma Tupperware e hoje utiliza uma que ganhou da filha, também corredora.

Aos 61 anos, ela não sai para treinar sem água.

Para Halisson, esse hábito merece atenção especial porque o cérebro depende de circulação sanguínea adequada e do equilíbrio entre água e eletrólitos para funcionar corretamente.

“Mesmo uma desidratação relativamente leve pode prejudicar a disposição, a atenção e o desempenho físico, especialmente em pessoas mais vulneráveis.”

O médico explica que, com o envelhecimento, algumas pessoas passam a sentir menos sede. Também podem ocorrer alterações na capacidade dos rins de conservar água.

Isso aumenta a vulnerabilidade à desidratação.

Por isso, a ingestão de líquidos deve ser distribuída ao longo do dia, respeitando as necessidades individuais.

Pessoas com doenças cardíacas, renais ou que utilizam determinados medicamentos podem precisar de orientações específicas.

E no calor de Campo Grande?

Para quem pratica corrida ao ar livre, o calor exige atenção redobrada.

Durante os exercícios, o organismo perde água e eletrólitos pela transpiração.

Quando essas perdas não são adequadamente compensadas, podem surgir fraqueza, tontura, queda da pressão arterial e outras complicações.

Em casos graves, a desidratação e as doenças relacionadas ao calor podem provocar alterações do estado mental e exigir atendimento de urgência.

Halisson recomenda evitar atividades físicas nos períodos mais quentes, preferindo horários com temperaturas mais amenas e considerando as condições climáticas.

Ele também orienta que a hidratação comece antes do exercício e continue durante e depois, conforme a intensidade, a duração do treino e as necessidades de cada pessoa.

Mas alerta que beber água em excesso também pode ser prejudicial, devido ao risco de desequilíbrio do sódio no organismo.

O importante é manter a hidratação adequada, sem exageros.

E um cuidado não pode ser esquecido: quem apresenta tontura, especialmente durante a prática esportiva, deve interromper a atividade e procurar avaliação profissional, em vez de insistir no treino.

Nunca é tarde para recomeçar

Ao falar de Ieda, Halisson deixa a explicação técnica um pouco de lado e destaca o significado humano de acompanhar a recuperação de uma paciente.

Para ele, envelhecer não significa abandonar sonhos ou aceitar a perda de autonomia como algo inevitável.

Cada pessoa tem seus limites, mas também pode encontrar novas possibilidades de viver.

Ieda é um exemplo disso.

Depois de enfrentar uma cirurgia complexa, voltou a correr, retomou atividades e conquistou a habilitação para pilotar motocicleta.

“A história da Ieda nos ensina algo muito importante: envelhecer não significa deixar de viver novas experiências, abandonar sonhos ou aceitar a perda da autonomia como algo inevitável.”

O neurocirurgião lembra que o trabalho da medicina não se resume ao tratamento de doenças.

“Porque o objetivo da medicina não é apenas tratar uma doença ou prolongar a vida. É também ajudar as pessoas a viverem melhor, com independência, dignidade e felicidade.”

A história de Ieda mostra que movimento, cuidados médicos e hábitos saudáveis podem fazer parte de uma vida ativa, mesmo depois de momentos difíceis.

Para Halisson, acompanhar essa transformação é uma das maiores recompensas de sua profissão.

E a paciente resume o que deseja para os próximos anos em poucas palavras:

“Minha vida é viver!”

Compartilhe este artigo:

inscreva-se

Ao clicar no botão "Inscrever-se", você confirma que leu nossa Política de Privacidade.

Publicidade

13 a 15 de novembro · Bosque dos Ipês6º Festival do Japão MSCultura, gastronomia e tradição nipônica em Campo Grande.Siga @festivaljapaoms