SorteioConcorra a peças da NASU arte botânicaQuero participar

Água que cuida

Água que cuida

Foto: Luciano Muta

Do gelo à hidroterapia, a água atravessa histórias de recuperação, movimento e saúde. Antes de cuidar do corpo, porém, ela precisa chegar segura às pessoas.

No começo da tarde desta sexta-feira, durante o Recovery Day da Fisiocentro, em Campo Grande, havia uma banheira cheia de água, cerca de 100 quilos de gelo e apenas uma pessoa disposta a entrar: eu, a jornalista Neiba Ota.

A imersão em água gelada não era exatamente uma novidade para mim. Já permaneci mais de 15 minutos dentro de uma banheira praticamente congelando pós treinos de corrida longos.

Ainda assim, o corpo não esquece o primeiro impacto.

Você entra, respira e o frio parece ocupar tudo. Depois de alguns minutos, alguma coisa muda e é possível suportar até os pedidos para mergulhar todo o corpo e a cabeça.

Na saída, ainda enfrentei muito frio. Mas, quando o corpo voltou a aquecer, veio uma sensação profunda de relaxamento. Se havia alguma dor ou desconforto muscular antes, naquele momento eu já não percebia.

E existe um efeito que, comigo, se repete depois dessas experiências: o corpo relaxa de tal maneira que durmo profundamente. É uma das sensações de bem-estar que mais me impressionam na imersão no gelo.

No mesmo espaço, encontrei pessoas utilizando a água de uma maneira completamente diferente, para voltar a movimentar articulações, recuperar o corpo e viver com menos dor.

“Aqui a água tem propósito”, comentou a fisioterapeuta Márcia Rotta Ribas.

Há 20 anos na atividade, Márcia aposta em diferentes recursos para aliviar dores e auxiliar na recuperação muscular de atletas e pacientes. “Na água, as possibilidades mudam conforme a temperatura e o objetivo do tratamento. Há hidroterapia, banhos de imersão e outros recursos empregados de acordo com cada necessidade”, explicou.

Gelo para corredores

Maratonista, Márcia também conhece, do outro lado, os desafios dos treinos longos e da preparação para uma maratona. Depois desses esforços, os banhos de imersão em água fria podem ser utilizados como estratégia de recuperação. Segundo ela, o frio ajuda principalmente na percepção da dor e do desconforto muscular. “Os primeiros minutos costumam ser os mais difíceis. Depois, o corpo se adapta.”

Foi também o desafio de Evelyn Ferreira, de 40 anos. Concentrada, ela controlou a respiração e permaneceu quase 12 minutos dentro da banheira de gelo.

Quando saiu, perguntei: “Gostou?”

A resposta veio imediatamente: “Adorei. Eu não acreditava que conseguiria.”

O corredor Enaldo Alvarenga, de 53 anos, também viveu a experiência pela primeira vez. Prestes a participar da Corrida do Choque, aproveitou a imersão para relaxar as panturrilhas. “Gostei muito do gelo. Foi a primeira vez.”

Quando a água deixa de desafiar e começa a sustentar

A poucos metros da banheira de gelo, a água assumia outra função. Na piscina de hidroterapia, dona Antônia Santos Alves, de 73 anos, conta que encontrou alívio para as dores. “A água acabou com minhas dores.”

O professor Moriel Cezar, que há três anos trabalha com hidroterapia, acompanhava dona Jovita Kalif, de 80 anos. Ela resume sua relação com as aulas de maneira simples: “Eu não falto uma aula.”

Cezar explica que a água reduz o impacto e a sobrecarga sobre as articulações, permitindo a realização de movimentos com mais conforto e segurança.

Há seis anos dedicada à hidroterapia, a fisioterapeuta Camila Perotte destaca especialmente os resultados entre pacientes em recuperação de cirurgias.

Para ela, a experiência dentro da piscina pode representar um recomeço.

“A água traz a cura.”

É a percepção de quem acompanha diariamente pessoas tentando recuperar movimentos, autonomia e confiança no próprio corpo.

Mas o cuidado proporcionado pela água não acontece apenas do lado de fora.

O médico André Martins destaca a hidratação como um dos pilares do funcionamento do organismo. “A hidratação adequada é fundamental para o funcionamento do organismo. A água participa da regulação da temperatura corporal, do transporte de nutrientes, da eliminação de resíduos e do funcionamento adequado do intestino”, explica.

Segundo ele, manter uma ingestão adequada de líquidos ao longo do dia se torna ainda mais importante em situações de calor, exercício físico, febre, sudorese ou maior perda de líquidos.

Durante atividades físicas prolongadas ou com muita transpiração, a reposição de eletrólitos também pode ser necessária, dependendo da intensidade e da duração do exercício.

E existe uma condição anterior a todas essas possibilidades: essa água precisa ser segura.

Antes de cuidar, a água precisa ser segura

Para que a água possa estar numa piscina de hidroterapia, numa clínica, dentro do organismo ou simplesmente em um copo, ela precisa chegar em condições seguras para o consumo e para a vida cotidiana.

O infectologista Maurício Pompílio chama atenção para essa dimensão fundamental da saúde. “Quando falamos em água segura ou potável, falamos daquela livre de impurezas e de microrganismos causadores de doenças.”

Para ele, saneamento e desenvolvimento caminham juntos. “O saneamento é essencial para o desenvolvimento saudável da população e também contribui para tornar o país economicamente viável. Investir em fontes adequadas de água e prover saneamento básico é uma necessidade e deve ser prioridade nas políticas públicas do país.”

É uma mudança de escala.

Da captação à torneira

Em Campo Grande, esse cuidado começa muito antes de a água chegar à piscina, à banheira de gelo ou ao copo. A Águas Guariroba é a concessionária responsável pelo abastecimento de água e pela coleta e tratamento de esgoto da Capital. Atualmente, a empresa informa que 99,9% da população é atendida com água tratada e mais de 94% conta com cobertura de esgoto.

A água que abastece a cidade vem dos córregos Guariroba e Lageado e também de poços profundos. Antes de chegar às torneiras, a água captada nos mananciais superficiais passa pelas estações de tratamento e por diferentes etapas, como coagulação, floculação, decantação, filtração, desinfecção, fluoretação e ajuste do pH. Depois, segue por uma rede de distribuição que ultrapassa 4 mil quilômetros.

O trabalho continua no controle da qualidade. Em 2025, segundo o Relatório Anual da Qualidade da Água da concessionária, foram realizadas 76.934 coletas de amostras e 520.978 análises, em 300 pontos de Campo Grande. O índice médio de potabilidade registrado no período foi de 99,22%.

Antes de cuidar na banheira, na piscina ou no copo, a água também precisa ser cuidada.

Dentro da Fisiocentro, segundo a fisioterapeuta Márcia Rotta Ribas, a água participa da recuperação de atletas, auxilia pacientes em reabilitação e ajuda uma pessoa de 80 anos a continuar se movimentando.

Dentro do organismo, participa de funções essenciais à vida.

Fora dali, água tratada e saneamento ajudam a proteger cidades inteiras.

A água que cuida

Horas depois de eu sair daquela banheira gelada, a água continuava trabalhando.

A água estava sustentando os movimentos de Jovita aos 80 anos.

Ajudando Antônia a conviver melhor com o próprio corpo.

A água também está preparando corredores para novas largadas.

Permitindo que pacientes em recuperação voltassem, pouco a pouco, a confiar nos próprios movimentos.

Às vezes gelada. Outras, aquecida.

Quase imperceptível, simplesmente chegando segura pela torneira.

A água muda de temperatura, de lugar e de função, mas permanece essencial.

Nesse Recovery Day, Márcia Rotta Ribas resumiu em poucas palavras o que eu havia observado durante toda a tarde: “Aqui a água tem propósito.”

E tem.

Quando cuidamos da água, ela encontra muitas maneiras de cuidar de nós.

Compartilhe este artigo:

inscreva-se

Ao clicar no botão "Inscrever-se", você confirma que leu nossa Política de Privacidade.

Publicidade

13 a 15 de novembro · Bosque dos Ipês6º Festival do Japão MSCultura, gastronomia e tradição nipônica em Campo Grande.Siga @festivaljapaoms