Bon Odori: a felicidade de voltar às origens

Foto: Matheus Almeida

Você já se imaginou indo 40 vezes ao Bon Odori de Campo Grande? Eu fui.

Enquanto caminhava pelo salão da Associação Esportiva e Cultural Nipo-Brasileira, percebi uma coisa curiosa nesta edição: muita coisa mudou em quatro décadas. Mas a magia do Bon Odori continua praticamente a mesma.

Nos anos 1986, 1987,1988, 1989, a estrutura era menor. Os enfeites, porém, eram muito parecidos com os de hoje. O salão ficava escuro, iluminado pela decoração da festa, e todos dançavam ao redor das obāsans, as senhoras que conheciam cada movimento das coreografias.

Muitas delas já se foram. Mas outras mulheres aprenderam seus passos. Depois vieram outras. E mais outras.

Talvez seja justamente essa uma das imagens mais bonitas do Bon Odori: alguém sempre aprende a dança para que ela não termine.

Os jovens também continuam lá. Naquela época, superlotavam a pista e, quando a música acabava, permaneciam do lado de fora conversando. Quarenta edições depois, a cena se repete. Mudam as roupas, os assuntos, os cabelos e provavelmente a maneira de combinar onde se encontrar. A vontade de estar junto continua igual.

O tamanho da festa, esse sim, mudou muito. Antigamente, a estimativa era de cerca de 2 mil pessoas durante todo o Bon Odori. Hoje, a expectativa é superar 15 mil visitantes ao longo da programação.

E existe algo muito bonito por trás desses números: a festa é feita pela própria Associação Nipo-Brasileira. A diretoria se envolve diretamente na organização e cada um oferece sua contribuição para que tudo aconteça. É uma grande estrutura, que recebe milhares de pessoas, mas continua sendo construída com o envolvimento da comunidade.

Mesmo crescendo tanto, o Bon Odori ainda tem aquele jeito de encontro de família.

Quando eu também era uma das adolescentes

Em 1993, na adolescência, boa parte da turma estudava no Colégio Dom Bosco. Éramos alunos do professor Chuck Miyahira, que naquela época era candidato a vereador.

Sempre fui uma excelente torcedora de time.

Quando o encontrei no Bon Odori, lembro de ter gritado muito pelo nosso professor, fazendo campanha para que todo mundo votasse nele. Chuck, tímido, ficou completamente vermelho.

A lembrança me faz sorrir porque mostra outra característica que atravessou os anos: o Bon Odori nunca foi apenas uma festa da comunidade japonesa.

É também um grande ponto de encontro de Campo Grande.

Por ali passam famílias, amigos, empresários, autoridades, representantes da comunidade e políticos. Gente que vai dançar, comer, rever conhecidos ou simplesmente observar uma tradição que começou muito antes de nós.

Bon Odori é uma celebração ligada à reverência aos antepassados, à memória daqueles que vieram antes e ao agradecimento pela vida e pelas colheitas. No fundo, fala sobre uma ideia muito japonesa: reconhecer que ninguém começa a própria história do zero.

As mulheres que sempre estiveram ali

Nesta 40ª edição, uma cena em especial chamou a atenção.

Estavam em Campo Grande a cônsul-geral do Japão em São Paulo, Yoriko Suzuki, e Yuka Nogami. Ver duas mulheres representando oficialmente o Japão trouxe também uma imagem interessante sobre as transformações da própria sociedade japonesa.

Durante muito tempo, especialmente aos olhos de quem observava de fora, o mundo oriental parecia comandado exclusivamente pelos homens.

Quem cresceu em uma família japonesa, porém, conhece outra história.

Dentro de muitas casas nikkeis, são as mulheres que organizam a família, administram o dinheiro, preservam os costumes, transmitem receitas, histórias, valores e tradições. Muitas vezes estavam longe dos cargos de maior visibilidade, mas nunca estiveram longe das decisões.

Agora, também ocupam cada vez mais os lugares onde podem ser vistas.

Yoriko Suzuki destacou a importância de conhecer de perto a comunidade de Mato Grosso do Sul e sua participação no desenvolvimento do Estado. “O Japão e o Brasil têm uma relação de 131 anos”, lembrou.

Outra mulher também simboliza essa transformação por aqui.

Maria Leny Adania, primeira mulher a presidir a Associação Nipo-Brasileira de Campo Grande, representa uma comunidade que conseguiu preservar uma cultura recebida dos antepassados e, ao mesmo tempo, dialogar com uma cidade que cresceu e se transformou.

Ela destacou também a aproximação institucional com o Japão, inclusive com a presença de um escritório consular em Campo Grande e o reconhecimento concedido ao diretor da Fiems, Sérgio Longen.

Representando o marido no evento, Adriana Sato falou de suas próprias raízes nipônicas e do orgulho de participar de uma celebração que chega à 40ª edição e se mistura à própria formação de Mato Grosso do Sul.

“Os japoneses vieram antes e contribuíram para escrever essa história”, disse.

A maior contribuição dos japoneses, de repente, não esteja apenas nos registros históricos, nas empresas criadas ou no desenvolvimento econômico. Para mim, está também naquilo que não aparece nas estatísticas.

Observe na comida preparada para alguém, na disciplina ensinada aos filhos, no respeito aos mais velhos, na fotografia dos antepassados dentro de casa, nas pessoas que oferecem seu trabalho para preparar a festa e em uma dança repetida durante 40 edições.

Um Papo Endorfina

Sempre falamos por aqui sobre aquilo que nos movimenta e isso não precisa ser apenas corrida.

No Bon Odori, há movimento por todos os lados. Na dança, nos tambores, nas crianças tentando acompanhar uma coreografia, nos idosos reencontrando amigos e nos jovens que permanecem conversando depois da festa.

Mas existe também um movimento invisível.

É aquele que nos leva de volta às nossas origens.

Por isso, o Bon Odori produz uma sensação tão boa em quem é nikkei. “Existe felicidade em reconhecer alguma coisa que já estava dentro de nós antes mesmo de sabermos explicar o que era”, comentou o empresário, advogado Roberto Oshiro.

Uma música toca e você conhece.

Uma comida chega à mesa e você reconhece.

Uma senhora começa a dançar e algum gesto lembra sua avó.

De repente, você percebe que tradição talvez seja exatamente isso: uma memória que encontrou uma maneira de continuar viva.

Quarenta edições depois, o Bon Odori continua.

Que outras gerações também possam manter essa tradição.

Porque algumas festas a gente frequenta.

Outras ajudam a contar quem a gente é.

O 40º Bon Odori de Campo Grande tem entrada gratuita e segue neste domingo, das 18h às 22h, na Associação Esportiva e Cultural Nipo-Brasileira, na Avenida Ministro João Arinos, 1792.

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