Antes de ajustar o ritmo, é preciso entender quem está correndo
A experiência de Bruno Rebello, da assessoria Percurso Livre, de correr uma maratona por mês influencia diretamente sua atuação como treinador. Ele não costuma responder automaticamente quando um aluno apresenta um novo desafio.
Primeiro, analisa o histórico, a regularidade, os treinos realizados e a capacidade de recuperação.
Em alguns casos, incentiva. Em outros, pede paciência. “Não é a hora. Vamos trabalhar um pouco mais.”
Para alunos que desejam avançar rapidamente nas distâncias, Bruno estabelece metas intermediárias.
Antes de correr uma meia maratona, pode ser necessário construir uma boa prova de dez quilômetros.
Antes da maratona, pode ser importante desenvolver consistência e segurança nos 21 quilômetros.

(Foto: Luciano Muta)
Não se trata apenas de atingir determinado tempo. A meta intermediária ajuda a formar uma base física, técnica e emocional para o próximo desafio. “O treinamento mostra se a pessoa é ou não capaz de fazer aquilo. Cada aluno tem sua história e seu histórico.”
Esse cuidado também aparece quando os treinos não saem conforme o planejado.
Uma planilha pode indicar queda de rendimento, mas somente uma conversa revela o que está acontecendo fora da corrida.
Problemas familiares, profissionais, emocionais ou de saúde interferem diretamente na forma como o corpo responde. Por isso, Bruno procura adaptar o treinamento quando percebe que o aluno atravessa um momento mais difícil. “Eu me preocupo com o todo.”
Existem dores que o remédio não alcança

Para Bruno, o fortalecimento muscular é importante. O treinamento contínuo também.
Mas nada disso substitui o cuidado com a pessoa.
Muitos alunos chegam à corrida procurando mais do que desempenho. Estão tentando respirar melhor, reorganizar a rotina, recuperar a confiança ou encontrar alguns minutos de silêncio em meio às pressões da vida.
“A corrida, às vezes, ajuda a tratar dores que o remédio não consegue alcançar.”

Essa percepção muda a função do treinador.
Ele deixa de ser apenas quem determina distâncias, ritmos e intervalos. Passa a observar o ser humano que existe antes do atleta.
Em alguns momentos, a melhor decisão não será aumentar o volume ou cobrar uma entrega.
Será aliviar a planilha para que a corrida não se torne mais um peso sobre alguém que já está carregando demais.
“Precisamos observar esse lado do aluno e não deixar que a corrida se transforme em mais uma dificuldade justamente quando sua vida já está um pouco mais complicada.”

Uma maratona por mês, mas somente durante um ano
Depois de completar o desafio, Bruno não pensou em transformar as maratonas mensais em um estilo de vida permanente. A explicação veio acompanhada de bom humor: “Não, porque aí acaba o casamento.”
A esposa imaginava que ele passaria o ano inteiro exausto. Mas, depois do terceiro ou quarto mês, a rotina se tornou mais administrável do que ambos esperavam.
Ainda assim, o projeto havia cumprido seu propósito.
Foi feito para permanecer na história.



Agora, Bruno continua planejando novas provas, mas sem a obrigação de correr 42 quilômetros todos os meses.
Ele diz não sentir a chamada “fossa pós-maratona”, aquela sensação de vazio que alguns atletas experimentam depois de concluir um grande objetivo.
O motivo é simples: antes de terminar uma prova, a próxima já está planejada.
Brasília, Campinas, Maringá.
O calendário continua se movimentando.
Entre os sonhos futuros, não estão necessariamente as grandes maratonas internacionais que dominam o imaginário de muitos corredores.
Bruno diz não ser obcecado pelas Majors nem por buscar índice para Boston.
O resultado, para ele, deve ser consequência do processo, e não a única razão para correr.
Existe, porém, um desafio que desperta sua curiosidade: correr as provas de 5, 10, 21 e 42 quilômetros durante a semana de eventos da Disney.
Além da experiência esportiva, seria também a oportunidade de realizar o sonho da esposa de conhecer o lugar.
Talvez seja esse o próximo encontro entre o corredor adulto e a criança que ainda encontra espaço para sonhar.

O que permanece depois dos 42 quilômetros
Ao longo de um ano, Bruno Rebello correu 12 maratonas.
Mas a grande história não está apenas na soma dos quilômetros.
Está no primeiro dia do ano, quando decidiu que a brincadeira seria levada a sério.
Está nas primeiras provas, quando o corpo parecia dizer que aquilo seria impossível.
Está em Curitiba, quando correu em estado de flow e alcançou o melhor tempo da vida.
Está na homenagem ao sogro, nos alunos esperando na chegada e na esposa entregando o troféu.
Está também nas manhãs em que não havia vontade, mas havia compromisso.
O desafio ensinou que o corpo pode se adaptar, que a preparação muda a percepção de distância e que grandes objetivos precisam ser construídos com paciência.

A principal conclusão de Bruno, de repente, apareça justamente na forma como ele trata seus alunos.
Nem todo desafio precisa ser aceito imediatamente.
Nem todo sonho precisa ser abandonado porque ainda parece distante.
Entre o “não consigo” e a linha de chegada, existe um território chamado preparação.
É ali que Bruno trabalha, ajudando cada corredor a descobrir não apenas quanto consegue correr, mas quem pode se tornar durante o caminho.













