Era para ser apenas uma notícia. Jornalista esportivo, Lucas de Senna, estava ali para contar a história de uma corredora que concluía sua primeira maratona. Mas, naquele encontro emocionado, com familiares e torcida na linha de chegada, a reportagem virou começo de uma nova história.
A personagem Bruna Cavallazzi seguiu correndo, mas levou junto o Lucas, o parceiro que surgiu de uma reportagem. Ali, virou amizade, amor, cumplicidade e também parceria em maratonas. Agora, ela chega à Maratona de Campo Grande com 40 experiências no currículo e, pela primeira vez, vai largar na elite.
Ao seu lado, Lucas fará pela décima vez os seus 42 km.

O começo
A corrida já fazia parte da vida dos dois antes mesmo de eles se encontrarem. Bruna começou a correr ainda menina, aos 13 anos, incentivo pelos pais. Aos 20, fez sua primeira maratona, em Recife, quando Lucas a conheceu. “Quando vi toda aquela movimentação, olhei para o outro lado e era ela chegando, aos prantos. Foi uma chegada muito emocionante. Esperei ela terminar e fui conversar para gravar uma entrevista. Foi assim que nos conhecemos”, disse.
Assim, nasceu uma amizade.
“Depois, começamos a conversar, viramos amigos, e ela me incentivou muito a fazer minha primeira maratona. Inclusive, ela me disse uma frase que virou uma grande motivação para mim:
-Para correr uma maratona, você precisa ter um propósito. Porque, quando o treino estiver difícil e as coisas não estiverem dando certo e isso vai acontecer, você precisa lembrar por que começou. É isso que move toda maratona”, recordou Lucas.

Coleção de maratonas
Depois da pandemia, Bruna engatou uma sequência impressionante de provas, viagens e histórias. Desde 2022, passou a correr, em média, uma maratona por mês. Este ano, a meta é ainda mais especial: chegar a dezembro com 50 maratonas concluídas.
Mas, quando fala sobre corrida, Bruna não fala apenas de números. Fala de amor, de constância, de cuidado e de gente.
Para ela, o segredo não está em correr sempre forte. Está em correr com inteligência, leveza e coração.
“Eu acho que o segredo é andar antes de cansar. Eu corro muito mais leve do que forte, para que o meu corpo consiga sustentar a distância”, contou Bruna.
Nutricionista, Bruna vê na alimentação um dos grandes pilares de sua longevidade no esporte. Mais do que suplementos ou fórmulas prontas, ela defende o básico bem-feito: comer bem, descansar e se hidratar.
“A alimentação é meu grande alicerce. Eu entendo a comida como o principal remédio”, disse.

Com 27 anos, Bruna carrega uma marca rara: começou a correr aos 13 e nunca teve lesão. Para ela, isso tem relação direta com o cuidado diário, com o respeito ao corpo e com a forma como escolheu viver a corrida. Bruna não corre apenas por performance. Corre pelas pessoas, pela torcida, pela energia das provas, pelas viagens, pelos amigos e pela família que a corrida lhe deu. Quando pensa no futuro, ela não fala em recordes. Não fala em marcas inalcançáveis. Fala em permanência. “Eu quero ter a corrida na minha vida para sempre. Eu me imagino velhinha, vendo meu neto ou bisneto correndo.”
Jornalismo na corrida
Lucas também já tinha uma longa história com a corrida antes de conhecer Bruna. Jornalista esportivo, começou a correr há cerca de 14 anos, quando morava em Cuiabá e cobria a tradicional Corrida de Reis. Depois de muitos anos fazendo reportagens sobre o evento, percebeu que precisava encontrar novas histórias. E concluiu que talvez a melhor forma de conhecer os corredores fosse se tornando um deles. “A única forma de encontrar boas histórias era correndo”, lembrou.
Foi assim que ele começou e nunca mais parou.

Como repórter esportivo da TV Globo, Lucas continuou contando histórias de atletas por vários estados brasileiros. Mas a corrida também passou a fazer parte da sua vida pessoal. Quando corre por lazer, costuma gravar, registrar momentos, conversar com pessoas e compartilhar histórias.
Antes de correr sua primeira maratona, Lucas observava a chegada dos maratonistas e se emocionava com o que via. Para ele, havia algo quase inexplicável naquele momento. Uma mistura de esforço, fé, dor, entrega e alegria.
Ele resume essa sensação em uma frase que arrepia: “Parece que Deus está aplaudindo essa galera.”
Porque quem já viu uma chegada de maratona sabe: ali não chega apenas um corpo cansado. Chega uma história inteira. “Chegam os treinos feitos quando ninguém viu. As dores vencidas em silêncio. As dúvidas enfrentadas no caminho. As renúncias. As manhãs difíceis. As promessas pessoais. Os motivos que cada corredor carrega sem precisar explicar.”

A maratona é uma prova de distância, mas também é uma prova de verdade. Nessa rotina, Bruna e Lucas se reconheceram ali.
Na corrida, não há muito espaço para personagem. Em algum momento, a prova revela quem a pessoa é. O corpo cansa, o rosto muda, a emoção aparece. A linha de chegada mostra mais do que resultado: mostra essência.
Valores inegociáveis
Bruna também levou essa verdade para sua vida profissional. Nutricionista, produtora de conteúdo e dona da própria rotina, ela faz praticamente tudo: atende pacientes, escreve roteiros, grava, edita, organiza a vida financeira e cuida da própria comunicação.
Lucas acompanhou de perto essa construção. E sempre a incentivou a preservar aquilo que ela tem de mais valioso: a credibilidade.

Para ele, Bruna não é alguém que apenas representa um estilo de vida. Ela vive aquilo que ensina. “A Bruna sempre foi nutricionista. Influenciadora, ela está influenciadora. Ela precisa deixar claro quem é. Ela é nutricionista. Não é atriz. Precisa transmitir credibilidade”, contou Lucas.
Em um mundo em que muita coisa parece fabricada, Bruna emociona justamente por ser real. Corre, cuida, estuda, trabalha, se desafia e compartilha o que vive sem perder sua essência.
E Lucas está ali. Não como espectador distante, mas como parceiro de caminho.
Eles correm juntos. Nem sempre no mesmo ritmo natural, mas sempre no mesmo propósito. Às vezes, ele acelera um pouco. Às vezes, ela reduz um pouco. E assim os dois encontram um passo comum. Na corrida, como na vida, segundo o casal, amar também é ajustar o ritmo.
“É saber quando puxar. Quando esperar. Quando acompanhar em silêncio. Quando celebrar. E quando simplesmente estar ao lado”, disse Lucas.
Maratona de Campo Grande

Neste domingo, Bruna chega à Maratona de Campo Grande para viver um momento especial: sua primeira largada na elite da prova, carregando no currículo 40 maratonas e uma história que inspira pela leveza, pela disciplina e pelo amor ao esporte.
Lucas também chega com sua própria conquista: vai correr pela décima vez os 42 km, a distância que um dia ele dizia querer sentir apenas uma vez na vida.
Mas a maratona fez com ele o que costuma fazer com tantos corredores. Quando terminou a primeira, já pensava na próxima.
E nunca mais parou.
Agora, os dois seguem juntos.
Cada um com sua história, suas metas, seu jeito de correr e sua forma de sentir a prova. Mas unidos por aquilo que a corrida tem de mais bonito: a capacidade de aproximar pessoas, revelar propósitos e transformar chegadas em começos.

E, neste domingo, quando cada um enfrentar novamente os 42 km, haverá mais do que pace, tempo, estratégia ou medalha. Haverá uma história inteira correndo junto.
A história de uma mulher que encontrou na corrida um caminho para a vida inteira; o de um jornalista que foi buscar uma notícia e encontrou o amor.
Por fim, dois corredores que descobriram que algumas chegadas não encerram nada. “As corridas apenas mostram por onde o coração decidiu continuar”, comentou Bruna.














