Você está preparado(a) para socorrer alguém durante uma corrida?

Foto: Studio Vollkopf


E se alguém passar mal durante a prova? Cair perto de você? O que você faria?

Após o corredor de São Bernardo do Campo, Robson Gonçalves, auxiliar de forma espontânea o norte-americano Ajay Haridasse, de 21 anos, que estava completamente exausto e mal conseguia se manter de pé durante a Maratona de Boston, uma pergunta ficou na minha cabeça:
E se fosse com você?
Foi exatamente essa pergunta que fiz à corredora Ana Carla Souza: — E se alguém passar mal durante a prova? Cair perto de você? O que você faria?
Naquele momento, eu nem imaginava que essa conversa se transformaria em um alerta real poucos dias depois.
Durante a Corrida Live Run, em Campo Grande, Ana Carla viveu a situação na prática.
“Foi um susto. Eu estava correndo muito bem quando uma corredora que vinha à minha frente caiu e eu acabei caindo junto. Parei a prova e fiquei com ela até a chegada do socorro”, contou.


A atitude foi admirável. Mas surge uma nova reflexão: e se a situação fosse mais grave? Estaríamos preparados para agir?

Recentemente participei do Simpósio Integra Med Sport, de Medicina Esportiva da Uniderp, onde o cardiologista e arritmologista Rafael Santos Gon abordou justamente a importância dos primeiros socorros em emergências esportivas.

Alerta

Os primeiros minutos podem salvar uma vida: o cardiologista Rafael Gon alerta para prevenção e resposta rápida em emergências esportivas

As corridas de rua cresceram no Brasil. Com elas, também evoluiu a estrutura médica dos eventos, o planejamento das equipes de resgate e a preocupação com a segurança dos atletas. Mas, segundo o cardiologista e arritmologista Dr. Rafael Santos Gon, professor do curso de Medicina da Uniderp, ainda há um desafio importante: preparar a população para agir diante de uma emergência.
Durante participação em uma jornada de medicina esportiva, o médico destacou que os primeiros minutos após uma parada cardíaca são decisivos para aumentar as chances de sobrevivência. “Nos Estados Unidos, esse conceito é muito mais difundido porque existe uma cultura forte de treinamento em primeiros socorros e resposta rápida à parada cardíaca. E isso precisa avançar cada vez mais no Brasil”, afirma.
Para ele, o ensino de primeiros socorros deveria começar ainda na escola. Estudos mostram que cerca de um terço das paradas cardíacas ocorridas fora do ambiente hospitalar é presenciado por crianças ou adolescentes.
“A questão do ensino é fundamental. Precisamos orientar desde cedo o que fazer diante de uma pessoa que perde a consciência ou sofre uma parada cardíaca. Os jovens podem estar presentes justamente nos momentos em que cada segundo faz diferença.”


O médico também chama atenção para situações que acontecem fora dos grandes centros urbanos. Trilhas, destinos turísticos, áreas rurais e pequenas cidades nem sempre contam com uma estrutura de atendimento próxima. “Às vezes a pessoa está apenas passeando, observando uma paisagem, e não existe suporte adequado por perto. Isso reforça ainda mais a importância de que as pessoas saibam reconhecer uma emergência e acionar ajuda rapidamente.”
Outro exemplo citado pelo especialista vem da Itália. No país europeu, desfibriladores estão disponíveis em diversos locais públicos e a avaliação médica pré-participação para atletas tornou-se obrigatória.
O resultado foi expressivo: a mortalidade por morte súbita entre atletas caiu cerca de 90%.
“Muitos desses casos podem ser identificados ainda na avaliação inicial, principalmente com a realização de um eletrocardiograma. Quando a Itália instituiu essa exigência, a incidência de morte súbita caiu de aproximadamente 3,6 para 0,4 por 100 mil atletas ao ano”, explica.


Para quem pratica corrida ou qualquer atividade física regularmente, a mensagem é clara: além do treinamento, é fundamental cuidar da saúde, realizar avaliações médicas periódicas e valorizar a prevenção.
Porque, no esporte e na vida, cada minuto conta. E cada vida preservada evita uma tragédia para famílias, amigos e toda uma comunidade.

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