“Não existe endorfina maior do que a possibilidade de estar viva”, disse psicóloga e artista Lígia Tristão Prieto
Mestra em Arte e Mediação Cultural, a psicóloga e artista Lígia Tristão Prieto encontrou na escrita um caminho de liberdade. Neste sábado, no acolhedor ambiente do Recanto das Ervas, ela reuniu sete mulheres em um Laboratório de Escrita Criativa que foi muito além das palavras. “Encontro, partilha, escuta e cura da alma.”
Entre cadernos abertos, silêncios, memórias e lágrimas discretas, cada mulher encontrou um espaço seguro para olhar para si mesma. Para nomear dores, atravessar histórias e perceber que, muitas vezes, aquilo que parecia esquecido ainda pulsava vivo por dentro.
“Para mim, a escrita é liberdade. É a nossa liberdade de existir. A maneira como nos inscrevemos no mundo. A forma como escrevemos nosso espaço nele. Isso é resistência. Não existe endorfina maior do que a possibilidade de estar viva”, definiu Lígia.



A proposta do laboratório nasce justamente desse reencontro com a própria singularidade. “Quem sou eu? De onde venho? O que vivi? O que nunca consegui dizer?”, disse Lígia.
Para ela, quando a palavra encontra existência, ela também cria realidade. Mais do que ensinar técnicas, a artista conduz mulheres a um mergulho íntimo e potente. Em um país onde as mulheres ainda ocupam poucos espaços de criação artística, ela transforma a escrita em resistência, acolhimento e permanência.
“Não é a primeira vez. Eu já conduzi outros laboratórios de criação com mulheres, porque essa é uma causa que eu defendo profundamente. Ainda hoje, as mulheres ocupam apenas 25% dos espaços de criação artística no Brasil. Isso é muito pouco. Para mim, isso é uma questão política e social. Talvez o fato de as histórias continuarem sendo majoritariamente contadas por homens também explique o país em que quatro mulheres são assassinadas por dia.”

O resultado da dinâmica aparece nos olhos de quem participa: todas atentas, sensíveis e profundamente conectadas.
A médica Nazira Scaffi chegou receosa, acreditando que precisaria apenas “sentar e escrever”. Saiu profundamente emocionada.
“Foi muito mais profundo do que eu imaginava. Estou saindo tocada. Percebi que aquilo que eu me culpava por não colocar no papel ainda estava vivo dentro de mim”, contou.

Regina Monique se emocionou ao perceber como histórias tão diferentes conseguem se conectar de maneira universal.
“Foi formidável conhecer a vivência de outras mulheres e entender como nossas histórias se cruzam de uma maneira tão única”, relatou.

Já Sybelle de Lima definiu a escrita como libertadora. “Parece que algo realmente se libera. Como se a gente pudesse deixar ir aquilo que fez parte do passado e entender que tudo isso também construiu quem somos hoje”, descreveu.
Professora de 5Ritmos, Sybelle de Lima trabalha com técnicas de movimento e liberação de hormônios ligados ao bem-estar. Ainda assim, encontrou na escrita uma nova possibilidade de autoconhecimento e cura.
“Eu já pratico a dança, o movimento, e sei como a arte pode ser uma grande aliada nas nossas descobertas. E hoje, estar aqui, foi maravilhoso.”

Responsável pelo Recanto das Ervas, a jornalista Márcia Chiad acompanhou cada momento com emoção. Durante uma das dinâmicas, relembrou histórias dos avós e resumiu o sentimento coletivo do encontro:
“É muito rico. Dessa forma, fica muito mais fácil escrever um livro e curar todas as feridas.”



Ao fim do encontro, nenhuma mulher saiu igual. Algumas levaram palavras no papel. Outras, silêncios organizados por dentro. Mas todas saíram mais leves.
Segundo Márcia Chiad, a intenção agora é que o laboratório continue acontecendo no Recanto das Ervas, abrindo espaço para que mais mulheres encontrem, na escrita, um caminho de liberdade, pertencimento e reencontro consigo mesmas.
Nesse Papo Endorfina, observando cada olhar, cada silêncio e cada palavra compartilhada, talvez exista mesmo uma felicidade silenciosa na escrita: aquela que nasce quando a alma finalmente consegue falar.













