“Minha vida é viver!”

Foto: Luciano Muta

Foto: Luciano Muta

Aos 61 anos, a advogada Ieda Almeida transformou a experiência de enfrentar um tumor cerebral em motivação para voltar a correr, cuidar da saúde e inspirar outras mulheres. A garrafinha de água é sua companheira inseparável

Ieda Maria de Souza Almeida tem 61 anos e muita coisa para fazer.

Quer correr, fazer musculação, praticar pilates, estudar, pilotar sua motocicleta e aproveitar a vida. Ex-servidora do Tribunal de Justiça, hoje aposentada e atuando como advogada, Ieda não tem dificuldade em definir suas prioridades.

“Eu sou advogada nas horas vagas. O que eu mais quero é viver.”

A frase ganha outro significado quando se conhece sua história.

Em 2024, Ieda descobriu um tumor cerebral e precisou passar por três procedimentos cirúrgicos. “A minha cabeça foi aberta em 16,17 e 23 de fevereiro de 2024”, disse.

A experiência mudou a maneira como passou a enxergar a própria vida.

Segundo ela, uma orientação médica marcou sua recuperação.

“O médico disse para mim: a sua cura é movimento.”

Ieda começou com pilates terapêutico e retomou a corrida com a assessoria da treinadora Lili Flores, atividade que já havia feito parte de sua vida.

E não pretende parar.

A aposentadoria e a vontade de voltar

Ieda começou a correr em 2014. A primeira prova dela foi na Volta das Nações e, após essa experiência, chegou a completar provas de dez quilômetros e até viajou ao Chile para participar de uma corrida.

Depois de quatro anos, deixou o esporte.

Conta que começou a se incomodar com os sinais do envelhecimento e que, naquela época, não mantinha os cuidados com alimentação e saúde que tem hoje.

A aposentadoria, em 2017, também trouxe mudanças.

Acostumada aos compromissos profissionais e aos horários do Tribunal de Justiça, sentiu falta de uma rotina.

“Eu acordava de manhã e ficava meio deprimida. Não tinha um ponto para bater, não tinha lugar para ir.”


Oito anos após aposentada, a corrida voltou à sua vida com um incentivo da filha.

Foi ela quem fez a inscrição das duas em uma prova. Ieda aceitou o convite e voltou a correr no ano passado.

A sensação depois da chegada foi decisiva.

“Eu fiquei muito bem depois da corrida. E aí não paro mais.”

Hoje ela mora a apenas 600 metros do parque onde pratica atividades físicas. Faz pilates terapêutico, acompanha a alimentação e respeita as orientações médicas para continuar ativa.

O médico recomendou que corresse três quilômetros. Ela achou pouco.

Depois de conversar, recebeu autorização para chegar, no máximo, aos cinco.

“Eu corria sete, mas o médico podou. Não vou fazer, porque chega uma certa idade em que precisamos ter cuidado. Não precisa ser irresponsável.”

A garrafinha também evoluiu

Há algo que Ieda sempre levou para suas atividades: água.

No início, era uma garrafa descartável.

Depois, passou a usar uma garrafinha Tupperware.

Hoje, leva uma garrafa que ganhou da filha, também corredora.

“Como eu evoluí na corrida, a garrafinha também evoluiu.”

O comentário vem acompanhado de um sorriso.

A garrafa é parte dos cuidados que Ieda incorporou à rotina, assim como a alimentação acompanhada por nutricionista e os exercícios adaptados às suas condições.

Em Campo Grande, onde o calor acompanha boa parte do ano, manter a hidratação é especialmente importante para quem pratica atividades ao ar livre.

Já na terceira idade, Ieda sabe que continuar em movimento exige também reconhecer os limites do corpo. Sempre que necessário, ela para o treino e abastece a garrafinha com água, no estacionamento do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul (TCE/MS).

A felicidade depois da corrida

Ieda conta que nem todos os dias começa os exercícios se sentindo bem.

Em algumas ocasiões, grava vídeos antes da atividade e compara com outros, feitos depois do treino.

“Às vezes faço vídeo quando saio de casa, para mostrar que não estou legal. Depois faço outro dentro do carro, naquela felicidade. E a felicidade é o dia inteiro.”

A disposição também aparece fora das pistas.

Ela gosta de ler, compra cursos, faz pós-graduação e continua estudando.

Na infância, Ieda enfrentou dificuldades financeiras. Cresceu no campo, em uma família na qual a mãe, apesar das limitações, sempre incentivou os filhos a estudar.

Hoje, quer aproveitar tudo o que conquistou, principalmente ao lado da família.

Casada há 37 anos com Adalmir José de Almeida, é mãe de Leandro e Mariana e avó de Gabriel, Sofia e Eliza.

A filha Mariana também é corredora e decidiu colocar a família toda em movimento. Incentivou o pai a seguir os passos da mãe e já fez a inscrição de todos para uma corrida em Maceió.

“Ela inscreveu todo mundo e ele está treinando”, conta Ieda, animada.

Mas as aventuras em família não ficam só nas pistas.

Com a parceria do marido, Ieda também realizou outro sonho: pilotar uma motocicleta de quase 300 quilos.

“Depois da cirurgia, tirei minha habilitação. Antes, eu tinha uma dificuldade relacionada ao lado esquerdo do cérebro que não me permitia fazer conversões. Hoje eu piloto”, comemora.

Para Ieda, aprender algo novo não tem idade.

“Quero mostrar para a mulherada que é possível, mesmo com 61 anos, tirar carteira de habilitação de moto. É possível correr cinco quilômetros.”

E ela faz questão de compartilhar suas conquistas nas redes sociais, mesmo admitindo que ainda está aprendendo a lidar com a tecnologia.

Entre as publicações, não faltam fotos com as colegas da Atitude Pilates, onde faz pilates terapêutico com Meiry Trindade.

É a turma que ela apresenta com orgulho: “Turma famosa de segunda e quarta, das 8h às 9h!”

Seu propósito, conta, é se tornar uma pessoa melhor e ajudar outras pessoas a fazer o mesmo.

A mulher que um dia deixou de correr porque percebia os sinais do envelhecimento hoje encontra justamente no movimento uma maneira de viver essa fase da vida.

Com os cuidados recomendados pelo médico, os treinos, os livros e a garrafinha presenteada pela filha, Ieda continua construindo novos planos.

E resume tudo em uma frase: “Minha vida não é advogar. Minha vida é viver, curtir, ser feliz.”

Compartilhe este artigo:

inscreva-se

Ao clicar no botão "Inscrever-se", você confirma que leu nossa Política de Privacidade.

Publicidade

13 a 15 de novembro · Bosque dos Ipês6º Festival do Japão MSCultura, gastronomia e tradição nipônica em Campo Grande.Siga @festivaljapaoms