O amor pela corrida virou profissão

Foto: Luciano Muta

Foto: Luciano Muta

Depois de 22 anos na área comercial, Uilder Martins mudou de vida e fez da paixão pelo esporte seu ganha-pão. Hoje, acorda às 3h30, vive exclusivamente da corrida e leva treinamento, acolhimento e muita água aos alunos

A madrugada ainda está escura quando o dia de Uilder Martins -mais conhecido como Treinador Uil – começa.

Às 3h30, ele já está acordado.

A jornada pode atravessar manhã, tarde e noite e só terminar perto das 22 horas.

No meio desse intervalo estão alunos, planilhas, treinos presenciais, acompanhamento online, deslocamentos e muitas caixas de água.

Em alguns períodos, chegam a 20 por mês.

Uil não considera a água um acessório do treinamento.

Ela faz parte da estrutura que monta para receber seus alunos.

Aos 42 anos, Uil vive exclusivamente do treinamento esportivo.

Nem sempre foi assim.

Durante 22 anos, trabalhou na área comercial de tecnologia.

Até que um período de forte estresse profissional provocou uma mudança de direção.

Uil já corria com amigos e decidiu cursar Educação Física.

No esporte encontrou uma segunda carreira.

Há quatro anos, deixou definitivamente a antiga profissão.

“Meu último registro em carteira foi há quatro anos. A partir dali, basicamente, meu sustento passou a ser o treinamento esportivo. Hoje eu só trabalho com corrida de rua.”

A corrida deixou de ser apenas parte da vida.

Virou o ganha-pão.

Antes de professor, aluno

Há uma característica da trajetória de Uil que ajuda a explicar a forma como trabalha atualmente.

Antes de ser treinador, ele foi aluno.

E passou por diferentes assessorias esportivas de Campo Grande.

Treinou com profissionais como André Milani, do Percurso Livre, Jonathan Reis dos Santos da
MTR – Trail Run e o professor João da Fartlek, experiências que ele considera fundamentais para a própria formação.

“Não foi só a minha experiência como corredor. A experiência como atleta dentro dessas assessorias me ajudou muito.”

Uil conhece, portanto, os dois lados.

Sabe o que significa prescrever um treino. Mas também sabe o que significa chegar como aluno, ter dificuldade, precisar de estímulo e esperar que alguém perceba que existe uma pessoa por trás daquele pace registrado no relógio. “Eu posso dizer que sou um bom atleta, um bom corredor. Mas, como professor, sou muito melhor.”

A frase resume uma escolha.

Alguns dos sonhos pessoais como corredor foram adiados para que outros chegassem aos deles.

Uil já percorreu provas longas, incluindo 70 quilômetros em Botucatu, e participou diversas vezes da Maratona de Campo Grande.

Hoje, no entanto, boa parte de sua energia está direcionada aos alunos. “Eu consigo ajudar pessoas a alcançar os sonhos delas. Isso é muito bacana.”

A assessoria saiu do parque

Outra mudança veio da observação.

A maioria das assessorias esportivas de Campo Grande concentra seus treinamentos no Parque dos Poderes.

Uil reconhece as vantagens do lugar: vias adequadas, espaço e segurança. Mas começou a perceber um problema.

Nem todos conseguiam chegar até lá. “O deslocamento em Campo Grande pesa. Eu percebi isso nos meus alunos.”

Em vez de esperar que todos fossem até ele, decidiu fazer o movimento contrário.

Levou o treinamento para outras regiões.

Hoje mantém atividades em locais como Lago do Amor, Avenida Duque de Caxias e região do Bela Laguna, além do Parque dos Poderes.

O movimento já ultrapassou Campo Grande.

Uma vez por mês, Uil atende presencialmente alunos em Nova Andradina e prepara novos pontos em Aquidauana e Deodápolis.

Online, as fronteiras são maiores.

Há alunos espalhados pelo Brasil e até em Portugal.

Água e acolhimento

Uil acredita que uma assessoria esportiva deixou de ser apenas um lugar para receber planilhas.

Ele define seu trabalho como um ecossistema. “A pessoa chega com uma meta de corrida, mas vem por algum motivo. Quer melhorar a qualidade de vida ou está passando por uma fase difícil. A primeira parte é o acolhimento.”

Nesse ambiente, pequenos gestos ganham dimensão.

Receber pelo nome, perguntar como a pessoa está.
Segundo ele, esperar quem está começando e deixar água disponível.

São atitudes simples dentro de uma rotina construída para que o aluno se sinta parte de alguma coisa. “A gente faz questão de acolher. Quando a pessoa se sente inserida, ela começa a perceber que pode realizar desafios que antes pareciam distantes.”

É por isso que aquelas caixas de água transportadas todos os meses dizem mais do que parece.

Elas acompanham o treinador que acorda antes do amanhecer, percorre diferentes regiões da cidade e decidiu transformar corrida em profissão.

Cada garrafa tem uma função evidente: hidratar.

Mas, para quem está começando a correr, cansado depois de alguns quilômetros ou tentando descobrir se consegue ir um pouco mais longe, existe também outra mensagem.

Alguém se preparou para recebê-lo.

Para Uil, esse cuidado começa muito antes da largada. Está na escolha dos locais de treinamento, no acolhimento dos alunos e nas caixas de água que leva para cada encontro.

Água antes da largada

Antes de chegar às mãos dos corredores, a água percorre outro caminho: captação, tratamento, controle de qualidade e distribuição.

Em Campo Grande, 99,9% da população é atendida pelo sistema de abastecimento de água e mais de 94% conta com coleta de esgoto. Uma infraestrutura essencial para a saúde e a qualidade de vida.

Uil conhece bem a importância da hidratação. Afinal, são até 20 caixas de água por mês para atender seus alunos.

Mas seu trabalho vai além dos quilômetros percorridos e das planilhas de treinamento.

Ele sabe que cada corredor chega com uma história, uma dificuldade ou um sonho.

E que cuidar das pessoas também faz parte da profissão.

Às vezes, esse cuidado começa com algo tão simples quanto oferecer um copo de água.

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