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Aos 68 anos, Vera Senefonte escolhe continuar viva pela arte

Foto: Renan Kubota

Foto: Renan Kubota

Depois de perder o marido e grande incentivador de sua pintura, artista plástica encontrou na arte, no esporte e na generosidade caminhos para continuar se movimentando pela vida

“Uma tela, para mim, não tem preço.”

Quando Vera Senefonte, de 68 anos, fala sobre suas pinturas, não está falando apenas de tinta sobre tela. Está falando de memória, amor, saudade e, principalmente, de vida.

Durante 42 anos, ela foi casada com o juiz José Rubens Senefonte, que morreu em um acidente de moto, em 2015. Ele era, segundo Vera, seu “fã número 1”.

Era José Rubens quem aparecia com tintas e telas de presente. Incentivava a mulher a pintar e não queria que ela vendesse suas obras. “Meu marido sempre me agradava com tintas e telas. Ele era o meu fã número 1, não deixava eu vender nenhuma.”

Vera nunca vendeu, porque ele já era o dono da tela. Ela continua não querendo vender.

Depois da morte do marido, porém, ela também não guardou sua arte dentro de casa.

Ela começou a espalhá-la.

Suas obras foram doadas para instituições e espaços públicos. Há pinturas no Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, na Casa da Mulher Brasileira, no Hotel da Amamsul e, mais recentemente, no corredor da Escola da Magistratura de Mato Grosso do Sul (Esmagis).

As novas telas retratam araras.

Enquanto isso, suas onças ganharam outro tipo de reconhecimento: a Série Onça Pintada, de Vera, está entre as obras plástico-visuais selecionadas para o Vestibular 2026 da UFGD.

A arte que nasceu de uma história de amor

Existe ainda uma delicadeza escondida nessas onças.

O marido José Rubens era apaixonado por fotografia desde adolescente e chegou a manter um laboratório fotográfico em casa. Uma fotografia de onça feita por ele serviu de inspiração para Vera pintar algumas das obras que marcariam sua trajetória.

Em Corumbá, uma delas ganhou até apelido: “Mona Onça”.

Vera levou a brincadeira muito mais longe.

Em uma viagem a Paris, carregou a imagem da onça até o Museu do Louvre, estampada em sua camiseta. Em meio à multidão diante da Mona Lisa, ficou de costas para a obra de Leonardo da Vinci, abriu o casaco e mostrou sua onça para uma fotografia.

“Foi muito especial. Não tem dinheiro que pague.”

Movimento também faz parte dessa história

Vera não encontrou vitalidade apenas diante das telas.

Ela participa dos encontros da magistratura, tornou-se a primeira mulher pensionista de Mato Grosso do Sul a participar de jogos, em Maceió e ela entra para competir.

Coleciona medalhas no tiro e também participou de corridas por faixa etária.

Aos 68 anos, Vera pinta, se exercita, compete, viaja, convive e continua criando.

Para ela, não significa que a ausência de José Rubens tenha desaparecido. É justamente, o contrário.

Durante muitos anos, ela pintava telas especialmente para presenteá-lo, principalmente em agosto, em comemoração ao Dia dos Pais.

Hoje, aquelas pinceladas continuam chegando a outras pessoas.

De alguma maneira, o incentivo do marido permanece cada vez que Vera abre uma caixa de tintas, começa uma nova tela ou decide entregar uma obra a alguém.

Há muitas formas de continuar amando quem partiu.

A de Vera foi não interromper o movimento.

Ela transformou saudade em cor, memória em presente e arte em uma maneira de continuar profundamente viva.

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