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Quem está por trás da câmera?

Foto: Arquivo pessoal

A fotografia já estava na história de Letícia antes mesmo dela perceber

Sempre existe aquela brincadeira de que todo japonês, de algum jeito, acaba perto de uma câmera fotográfica ou do cultivo da terra. No caso da jovem Letícia Aiko Masaoka Mariano, a brincadeira quase parece ter sido escrita pela própria família.

A fotógrafa nasceu no Japão, cresceu em Campo Grande e encontrou na fotografia uma ponte entre dois países, três gerações e as próprias memórias. Em sua formação profissional, especializou-se em gestão de redes sociais, marketing digital, criação de conteúdo e estratégias de comunicação para mídias digitais.

Aos 23 anos, Letícia trabalha com fotografia e audiovisual esportivo em Campo Grande. Mas, para entender por que ela foi parar atrás das câmeras, é preciso voltar algumas décadas. E atravessar o oceano.


História

Letícia nasceu em Kosugue, no Japão, em 2003. Filha de brasileiros, viveu no país até aproximadamente os seis anos, quando veio para Campo Grande com a mãe.

Curiosamente, seus próprios pais haviam feito antes o caminho inverso de muitos imigrantes japoneses que chegaram ao Brasil. A mãe, paraense, e o pai, campo-grandense, foram ao Japão por razões diferentes, acabaram vivendo na mesma cidade e se conheceram por lá.

Quando Letícia deixou o Japão ainda criança, ficaram poucas lembranças próprias daquela primeira infância. Mas havia algo capaz de transportá-la de volta: as fotografias.

Parede da saudade

O avô Gil Mariano, que permaneceu no Japão, fotografava momentos da infância da neta, revelava as imagens e as enviava para o Brasil. “Todas as lembranças que eu tenho do Japão são através dessas fotografias.”

Nas imagens estavam a neve, os lugares onde viveu, a família e pedaços de uma cultura da qual ela fazia parte, mas da qual havia se afastado geograficamente muito cedo.

As fotografias passaram a funcionar como pequenas cápsulas de memória. “Eu guardo essas fotos e gosto de vê-las”, comentou.

O avó Gil faria ainda outra coisa decisiva: colocou nas mãos da neta uma de suas câmeras fotográficas. “Foi o primeiro equipamento que, anos mais tarde, se transformaria em minha profissão”, disse.


Uma descoberta na própria árvore genealógica

Houve, ainda, outro capítulo dessa história que Letícia só conheceria depois.

O bisavô materno, Pedro Ishao Yamashiro, pai de sua avó Tânia, havia trabalhado como fotojornalista do Diário da Serra, em Campo Grande, nas décadas de 1960 e 1970.

A descoberta mexeu com ela. “Isso me acendeu os olhos”, conta.

Mais do que descobrir uma profissão exercida por um antepassado, Letícia percebeu que aquela relação com a imagem vinha de muito antes de sua própria escolha profissional. “Aqui tem muita história!”


Avós e a fotografia

De um lado, um avô no Japão guardando a infância da neta através das fotografias. Do outro, um bisavô que já havia usado uma câmera para registrar histórias de Campo Grande décadas antes.

No encontro dessas duas histórias, Letícia, como a guardião, desse olhar artístico.

Da memória de família às recordações dos atletas

Hoje Letícia trabalha ao lado do marido, Vitor Rodrigues, cuja história o Papo Endorfina já contou na série Quem está por trás da câmera?.

Os dois atuam no audiovisual e também são atletas. Criaram a REC Sport, voltada à produção audiovisual, e trabalham com o Esporte 3D, que Letícia gosta de definir como uma empresa de “memórias esportivas”.

Essa definição revela muito sobre ela, porque foi justamente por meio das fotografias que Letícia conseguiu preservar as próprias memórias.

Agora, é ela quem faz isso pelos outros.

Na chegada de uma corrida, no esforço de um atleta ou naquele instante em que alguém cruza a linha e percebe que conseguiu, Letícia procura registrar emoções que poderiam desaparecer rapidamente se ninguém estivesse ali para guardá-las.

Ser atleta também mudou sua maneira de fotografar. “Conseguimos sentir a emoção do atleta”, disse.

Sua formação em gestão de redes sociais, marketing digital, criação de conteúdo e estratégias de comunicação para mídias digitais completou o caminho profissional, mas a raiz parece estar muito mais longe.

Está nas fotografias enviadas do Japão.

Na câmera que recebeu do avô.

Na descoberta do bisavô fotojornalista.

E numa história familiar construída entre Brasil e Japão.

O sonho de voltar ao Japão

Há ainda um capítulo dessa história que Letícia quer escrever.

Ela sonha voltar ao Japão e reencontrar os lugares que hoje conhece principalmente pelas fotografias feitas por seu avô. “A neve, as paisagens e os cenários da minha primeira infância permanecem guardados em imagens que atravessaram o oceano e ajudaram a construir minhas lembranças”, comentou.

Letícia deseja, no futuro, fazer o caminho de volta. Desta vez, ela estará atrás de uma câmera. A sua vontade é retornar aos lugares registrados pelo avô e produzir suas próprias fotografias, revivendo, com o olhar de hoje, aquelas imagens que durante tantos anos foram sua principal conexão com o Japão. “Quero muito retornar ao Japão para, de fato, viver isso.”

O avô Gil Mariano esteve atrás da câmera quando ela ainda era criança. Registrou momentos, revelou fotografias e ajudou a preservar uma infância que Letícia era pequena demais para guardar inteira na memória.

Agora, ela sonha reencontrar esses mesmos cenários e apertar, ela própria, o disparador.

A câmera atravessou gerações

De um bisavô fotojornalista em Campo Grande a um avô registrando a infância da neta no Japão.

Depois, à jovem que transformou a fotografia em profissão.

A história de Letícia atravessou países, gerações e câmeras.

Hoje ela registra chegadas, conquistas e emoções de atletas. Porém, algumas das fotografias mais importantes de sua vida ainda estejam por ser feitas.

Anos atrás, o avô fotografou o Japão para que ela pudesse se lembrar.

Agora, Letícia sonha voltar para fotografar aquilo que nunca quer esquecer.

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