Há mais de 20 anos, quando estive no Japão, fiquei com uma curiosidade: queria entender o golfe.
Via aqueles campos enormes, aquele ritual quase silencioso, os tacos, as roupas, os carrinhos e pensava: afinal, o que existe de tão especial nesse esporte?
Demorou.
Mais de duas décadas depois, não precisei voltar ao Japão para descobrir.
Foi aqui mesmo, em Campo Grande.
Depois da reportagem que fizemos no Papo Endorfina sobre as Monstrinhas do Golfe, recebi um convite da Patrícia Iasuda para conhecer o esporte de perto. Aceitei.
E descobri rapidamente que havia uma regra importantíssima para a minha estreia.
Carol, que também está começando, explicou:
“Você precisa ficar em silêncio e virar estátua.”

Imaginem eu.
Logo eu, que fui ao campo justamente para perguntar, conversar, observar e entender tudo.
Mas obedeci. Ou pelo menos tentei.
Quando alguém se prepara para a tacada, muda o ambiente. As conversas param. Ninguém anda. Ninguém interfere. É o momento da jogadora e da bola.
Depois, a vida volta a acontecer.
E acontece bastante.
Um esporte que parece tranquilo. Só parece.
Aos 72 anos, a neuropsicóloga Maria Arminda Ferragut me contou algo que ajuda a explicar por que tanta gente se apaixona pelo golfe.
Para ela, o esporte ajuda a diminuir a ansiedade e aumenta a concentração.
Faz sentido.
No campo, você não consegue estar em muitos lugares ao mesmo tempo. Existe a bola, o alvo, a próxima tacada e você.

Talvez seja justamente esse exercício de presença que faça tanta gente sair de uma partida fisicamente cansada, mas mentalmente mais leve.
E não pense que elas desistem facilmente.
Naquele sábado, a chuva chegou e tirou as mulheres do campo. Não por medo de molhar o cabelo ou estragar o jogo, mas por uma razão bastante séria: risco de raios.
Elas esperaram.
O tempo abriu.
Voltaram para o campo.
Simples assim.
Quem disse que golfe é só taco e bola?
Outra descoberta minha: uma golfista carrega um pequeno arsenal.
Tacos diferentes, bolas, marcador, cartão, lápis…
E contas. Muitas contas.
É preciso anotar o número de tacadas e acompanhar o desempenho de cada jogadora.

Foi aí que Tatiana Torales de Lima, que gentilmente me levou pelo campo em um carrinho, apresentou uma das coisas mais curiosas que aprendi naquele dia.
No golfe existe o handicap.
Eu quase diria que é o esporte em que quem “perde” também pode ganhar.
Explico.
O handicap é um sistema que considera o nível de habilidade de cada jogador e permite que pessoas de desempenhos muito diferentes disputem de forma mais equilibrada.
Na prática, alguém que está começando pode competir com uma golfista muito mais experiente com chances reais de resultado.
Achei fascinante.

Em vez de dizer ao iniciante “você ainda não é bom o suficiente para jogar conosco”, o próprio sistema cria uma maneira de colocá-lo na disputa.
Que outro esporte faz isso de forma tão estruturada?
Talvez exista aí uma pequena lição para a vida: nem todo mundo começa do mesmo lugar.
E tem um botão no boné
Em determinado momento, comecei a reparar nos bonés.
Havia pequenos objetos presos neles.
Alice Pessoa mostrou o seu.
Veio da África do Sul.
Descobri que aquilo não era apenas enfeite.

É um marcador de bola, geralmente preso ao boné por uma base magnética. Quando a jogadora precisa retirar a bola do green, o marcador indica exatamente onde ela estava para que seja recolocada depois.
E aí apareceu outra tradição divertida.
Quem viaja pode trazer marcadores diferentes.
De repente, aquele pequeno objeto preso ao boné deixa de ser apenas equipamento esportivo.
Também vira lembrança.



África do Sul no boné.
Histórias no campo.
Vieram pelo golfe. Ficaram umas pelas outras.
Alessandra Chinelli chegou ao esporte incentivada pelo marido.
No campo, ganhou outra parceria: Fernanda Andrade.
E talvez essa seja uma das coisas mais interessantes das Monstrinhas.

Cada uma chegou por um caminho.
Uma por influência do marido.
Outra pela família.
Outra porque queria experimentar.
Outra porque simplesmente se apaixonou pelo desafio.
Mas o esporte criou um ponto de encontro.
Naquele sábado estavam Patrícia Iasuda, Tatiana Torales de Lima, Denise, Paula, Maria Arminda, Fernanda, Carol, Alice Pessoa, Larissa, Sônia, Andréia e Alessandra.
Alessandra ainda me lançou um desafio:
guardar o nome de todas.
Acho que consegui.
Ou pelo menos estou fazendo um esforço jornalístico considerável para provar que sim.

Naquele dia não estavam Bernadete Martins Gaspar Rangel, diretora de golfe, e Letícia Maciel Brasil, que participaram da primeira reportagem do Papo Endorfina.
Mas, depois de conhecer o grupo, entendi melhor o que elas haviam me contado.
Golfe realmente não é apenas tacada.
No fim, tem champanhe
Depois de toda a concentração, das contas, das caminhadas, das bolas que foram para onde deveriam e provavelmente de algumas que resolveram ter vida própria, chega o final do torneio.
E aí muda o jogo. Vem a celebração.
Champanhe, conversa e risadas.
Uma pequena festa depois de horas no campo.
Talvez seja essa combinação que explique as Monstrinhas.

Elas levam o esporte a sério.
Mas não parecem ter nenhuma intenção de levar a vida séria demais.
Eu fui conhecer o golfe por curiosidade.
A mesma curiosidade que começou no Japão há mais de 20 anos.
Descobri regras, marcadores, handicap, silêncio, concentração e até que preciso aprender a virar estátua.
Mas saí do campo pensando menos nos tacos e nas bolas.
O que mais ficou foram elas.
As mulheres que esperaram a chuva passar para voltar ao jogo, que competem, torcem umas pelas outras, carregam lembranças de viagens nos bonés e terminam o torneio celebrando juntas.
Foi uma manhã de muito aprendizado.
E percebi que ainda há muito para conhecer.
Sobre o golfe, claro.
Mas principalmente sobre elas.
Porque cada Monstrinha parece carregar uma história diferente para contar.

E, depois de sábado, confesso: fiquei com vontade de conviver mais com esse grupo, ouvir essas histórias e aprender um pouco mais a cada encontro.
Talvez seja esse o maior acerto da minha estreia no golfe.













