Há 41 anos, um casal reuniu a criançada para agradecer pela recuperação da filha. João do Ovo já se foi, mas filhos, netos e moradores do Santa Luzia mantêm viva a festa que ele começou
Tudo começou com sete crianças, um almoço simples e um motivo muito particular para agradecer.
Em 1985, João Manoel da Silva, que ficaria conhecido como João do Ovo, e a esposa, Madalena Nogueira Lopes, decidiram preparar arroz, macarrão e salada para algumas crianças do bairro Santa Luzia, em Campo Grande.

A intenção era celebrar a recuperação da filha mais velha do casal, Andréa Lopes da Silva, que havia apresentado sintomas de meningite e permanecido três dias internada em uma unidade de terapia intensiva.
Seria uma comemoração pequena. Seria realizada uma única vez.
Não foi nenhuma das duas coisas.
As sete crianças chegaram acompanhadas pelos pais e o almoço acabou reunindo cerca de 20 pessoas. Cada criança ganhou também um sabonete e uma pasta de dentes. No ano seguinte, João e Madalena resolveram repetir o gesto. Dessa vez, prepararam um bolo para 30 crianças.
E a festa começou a crescer.
Quatro décadas depois, Andréa está com 41 anos. A história que começou por causa dela continua sendo escrita pela própria família. Hoje, até sua filha, Alanis Vergoti, de 10 anos, participa dessa tradição.

O bolo ficou cada vez maior
Durante anos, o bolo foi um dos símbolos da festa. À medida que a quantidade de crianças aumentava, aumentava também a cozinha necessária para recebê-las.
Em 2005, segundo os registros da família, foram preparados 300 quilos de bolo.
Com a perda de pessoas que ajudavam na preparação, a organização precisou mudar a forma de atender as crianças. A partir de 2007, o bolo deu lugar ao cachorro-quente. Naquele primeiro ano da mudança, foram preparados 2 mil cachorros-quentes.


Dificuldades financeiras fizeram com que a grande estrutura da festa fosse interrompida em 2010.
João, porém, não interrompeu a tradição.
Quando não havia festa, João ia até as crianças
Nos anos seguintes, todo dia 12 de outubro João saía pelas ruas distribuindo doces e brinquedos às crianças da região.
Nem mesmo um diagnóstico de câncer, em 2016, foi suficiente para afastá-lo completamente daquela rotina.
Em 2018, já debilitado pelo tratamento e com dificuldades para caminhar, João voltou a vestir-se de palhaço e percorreu os bairros distribuindo doces.

Seria seu último Dia das Crianças.

O documento mantido pela família registra que, depois daquele percurso, João conversou com o filho caçula, André Lopes, e pediu que ele continuasse a missão de alegrar as crianças da região. Pouco mais de um mês depois, em 25 de novembro de 2018, João morreu.
Uma das fotografias guardadas pela família mostra justamente João vestido de palhaço naquele último ano. O registro é identificado como sua última fotografia caracterizado para a ação, cerca de um mês antes de sua morte.

O filho decidiu continuar
Depois do período de luto, André e a família resolveram fazer mais uma edição.
A ideia, inicialmente, era cumprir a promessa e homenagear João.
Com familiares e amigos, prepararam 2.500 cachorros-quentes, 250 litros de bebida, doces, pipoca e brinquedos, além de reunir dez palhaços.
Cerca de 400 crianças participaram acompanhadas de suas famílias.
Mas alguma coisa chamou a atenção de quem estava ali: entre os adultos havia pais e avós que tinham frequentado a mesma festa quando eram crianças.
Aquela celebração já não pertencia apenas a uma geração.
Era memória de bairro.
Era gente que havia chegado criança e agora voltava levando os próprios filhos e netos.
A família decidiu que não seria a última.
A pandemia impediu a realização nos anos de 2020 e 2021, mas a festa retornou posteriormente, mantendo comida, doces, brincadeiras, brinquedos e os palhaços Du Ovo & Du Ovinho.
Muito além do palhaço
A história de João Manoel da Silva também se mistura à transformação do próprio Santa Luzia.
Filho de pernambucanos, ele chegou à região quando, segundo o relato familiar, havia apenas duas casas no local.
Pai de cinco filhos, participou de mobilizações por melhorias no bairro, inclusive pela implantação de uma escola. Também atuou como vice-presidente do bairro, presidente de associação de pais e mestres, presidente do conselho comunitário de segurança da região e presidente da associação de moradores.

Talvez isso ajude a explicar por que uma festa originalmente criada dentro de uma família conseguiu se transformar em algo tão comunitário.
João fazia parte daquele lugar.
E aquele lugar acabou fazendo parte de sua história.
Três gerações depois
Há filhos, netos, crianças, adultos vestidos de palhaços, famílias preparando comida e moradores ocupando a rua.
Em uma das imagens do acervo, três gerações da família aparecem juntas. O próprio material apresentado pelos organizadores resume a intenção: viúva, filhos e netos mantendo a tradição.
E há Andréa.
A menina cuja recuperação deu origem àquele primeiro almoço hoje participa da festa adulta e ao lado da filha.
A celebração que seus pais imaginavam realizar uma única vez chegou à 30ª edição.

E a rua vai virar festa novamente
Neste 12 de outubro, a Rua São Ramão, no bairro Santa Luzia, volta a receber crianças e famílias.
Para esta edição, a organização prevê 2.500 cachorros-quentes, 250 litros de refrigerante, pipoca, algodão-doce, doces, picolés, brinquedos infláveis, pula-pulas, brincadeiras, pintura facial e corte de cabelo gratuito, além de palco e estrutura de apoio.
A programação será realizada, nesta segunda, das 8h às 11h30, na Rua São Ramão, 488, entre as ruas Santa Gertrudes e Santa Mônica, no Bairro Santa Luzia, em Campo Grande. A organização é de familiares e amigos de João do Ovo.
SERVIÇO
30ª Festa das Crianças Amigos do João do Ovo
Data: 12 de outubro de 2026
Horário: 8h às 11h30
Local: Rua São Ramão, 488, entre as ruas Santa Gertrudes e Santa Mônica
Bairro: Santa Luzia, Campo Grande
Organização: familiares e amigos de João do Ovo
Contato: André Lopes, (67) 99855-1760 | Adriano Lopes, (67) 98117-6631













