Aos 50 anos, Katiúscia Nasu transforma flores, fé, vocação e a memória de uma família japonesa em peças que atravessam o tempo
Há flores que duram poucos dias. Outras, nas mãos de Katiúscia Nasu, parecem encontrar uma maneira de permanecer.
Aos 50 anos, ela transforma hortênsias, orquídeas, flores de cenoura e outros elementos botânicos em peças preservadas em resina. Mas basta conversar alguns minutos com Katiúscia para perceber que seu trabalho não é exatamente sobre impedir que uma flor desapareça. “Simplesmente, precisamos preservar histórias”, diz.
Formada em Odontologia, Katiúscia exerceu a profissão durante anos. Depois, seguiu por outros caminhos, passou pelo ambiente corporativo, fez MBA, mestrado e construiu uma carreira distante daquilo que hoje ocupa suas mãos.


A arte, porém, nunca desapareceu completamente.
Ela sempre gostou de desenhar, de aquarela, de museus e exposições. Em determinado momento da vida, voltou a olhar para esse lado que permanecia guardado. “Fiz cursos, testes, erros, novas técnicas e novas tentativas”, comentou.
As primeiras peças não ficaram como ela imaginava. Então estudou mais e experimentou flores diferentes.

Fez outros cursos e testou novamente, até chegar ao momento em que se sentiu segura para mostrar seu trabalho às pessoas.
Ela aprendeu mais que uma técnica, Katiúscia reencontrou uma parte de si mesma.
Uma flor pode levar dois meses para ficar pronta
O processo é lento. “Antes de entrar na resina, uma flor precisa perder a umidade e passar por técnicas específicas de preservação. Algumas permanecem aproximadamente 15 dias em uma prensa botânica, com trocas de papel durante o período.”

Outras, segundo ela, precisam de processos diferentes para manter sua forma tridimensional.
Depois começa outra etapa.
A resina é colocada cuidadosamente, camada por camada.
Não é possível simplesmente posicionar a flor e despejar o material.
Ela poderia boiar, sair do lugar ou até ser danificada pelo calor produzido durante a cura da resina.
Nas peças maiores, todo o processo pode levar cerca de dois meses.
O resultado é um objeto aparentemente imóvel, mas que guarda dentro dele algo que já esteve vivo. “Nenhuma peça é exatamente igual à outra”, enfatiza.

A inclinação de uma folha, a tonalidade de uma pétala, uma pequena curva da planta tornam cada trabalho único.
Por isso, Katiúscia decidiu numerar suas criações. “Cada peça recebe um registro, a identificação do elemento botânico utilizado e informações sobre sua simbologia.”
É quase como uma joia.


Um respiro no meio da rotina
Katiúscia também cria pequenas composições pensando em lugares aparentemente comuns, como uma mesa de trabalho.
A ideia é simples.
No meio de computadores, compromissos, reuniões e tarefas, uma pequena presença da natureza pode fazer o olhar parar por alguns segundos.


Para ela, esse encontro pode trazer serenidade, um ponto de equilíbrio. “Um pequeno intervalo dentro de dias que muitas vezes se tornam exaustivos. É quase um respiro”, comenta.
A natureza, que normalmente estaria do lado de fora, passa a ocupar alguns centímetros da mesa. “Pode transformar quem olha para ela”, diz.
Fé dentro da arte
Há outra dimensão presente no trabalho de Katiúscia: a fé.
Ela conta que lê frequentemente a Bíblia, faz suas orações e encontra em determinados versículos uma sensação de paz e segurança.

Aos poucos, essas palavras começaram a aparecer também em suas criações.
Não como decoração, mas como parte daquilo que ela própria carrega.
Para Katiúscia, a arte inevitavelmente revela um pouco de quem a produz. “Alguns determinados versículos me trazem conforto, eu gostaria que essas mesmas mensagens pudessem alcançar outras pessoas.”
Assim, flores, palavras e fé passam a dividir o mesmo espaço.
O que é vocação?
Uma das coleções criadas por Katiúscia recebeu o nome de Vocações. A escolha diz muito sobre sua própria trajetória.
Depois de ter sido dentista, executiva e pesquisadora antes de chegar ao trabalho artístico, ela passou a enxergar vocação de uma maneira diferente.

Vocação, para ela, não é necessariamente aquilo que está escrito em um diploma. “É aquilo que cada pessoa carrega de forma particular, seus dons, suas habilidades. A maneira única de entregar alguma coisa ao mundo.”
Durante nossa conversa, ela me deu um exemplo: mesmo que existam dez jornalistas, nenhum deles fará exatamente o mesmo trabalho.
Cada pessoa deixa algo de si naquilo que realiza.
Essa singularidade, para Katiúscia, é a vocação. “Algumas não aparecem cedo e precisam esperar.”
Uma família que atravessou o oceano
No trabalho de Katiúscia, há uma história que começou muito antes dela. Seu pai, avós e tios nasceram no Japão.
O pai nasceu durante a Segunda Guerra Mundial e viveu os primeiros anos no país devastado pelo pós-guerra.
A família era originária de Wakayama e integrou um dos grupos de imigrantes japoneses que vieram para Mato Grosso do Sul.
Durante nossa conversa, Katiúscia abriu um livro produzido em homenagem ao centenário da imigração japonesa.
Ali estão registradas 67 famílias.
Entre elas, a sua.
Página após página aparecem fotografias, nomes, trajetórias e registros de quem atravessou o oceano para começar outra vida no Brasil.
A viagem de navio durou aproximadamente dois meses.
Depois vieram o trem e o caminhão.
Quando chegaram à região de Dourados, as estradas praticamente acabaram. “Os homens continuaram parte do percurso a pé. Na região onde hoje está Vicentina, encontraram uma realidade sem energia elétrica, poços ou infraestrutura. Era preciso começar quase tudo do zero”, conta.

Duas gerações para construir uma vida melhor
Quando Katiúscia fala sobre essa história, o significado de preservar ganha outra dimensão com o sobrenome da família Nasu, estampado em sua arte.
Ela reconhece que duas gerações de sua família trabalharam praticamente toda a vida para que a geração seguinte pudesse ter aquilo que para muitos hoje parece simples. “Estudar, ter oportunidades, escolher caminhos, construir uma profissão e ter uma vida mais confortável.”
Por isso, parte de seu trabalho também é uma homenagem.
Uma forma de reconhecer quem veio antes. “É muita gratidão. A gente tem que honrar a vida da nossa família, de quem veio antes da gente.”
Suas peças fazem exatamente isso. “Preservam flores. Mas também eternizam símbolos, histórias, fé, vocação e memórias.”














