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A primeira pedalada a gente nunca esquece

Aos 54 anos, Eva pedalou pela primeira vez durante um passeio com pessoas cegas e voluntários no Parque dos Poderes.

Aos 54 anos, Eva pedalou pela primeira vez durante um passeio com pessoas cegas e voluntários no Parque dos Poderes.

Voluntários guiam pessoas cegas em passeio ciclístico no Parque dos Poderes

Vinte pessoas com deficiência visual atendidas pela ISMAC participaram de um passeio ciclístico guiado no Parque dos Poderes, em Campo Grande. A iniciativa partiu do empresário Romildo Sanguina Pinto, da City Bike Campo Grande, com a participação de amigos do pedal e voluntários. Para alguns dos participantes, foi a primeira experiência sobre uma bicicleta.

“Convidei várias pessoas e contei também com a mobilização do professor Marcelo Miranda, que sempre apoiou as ações esportivas”, contou Romildo.

Naquela manhã, as bicicletas seguiram pelo Parque dos Poderes em duplas.

Na frente, voluntários responsáveis por conduzir, indicar o caminho e avisar sobre curvas e obstáculos. Atrás, pedalando junto, pessoas cegas que puderam experimentar o ciclismo em um dos principais espaços de esporte e lazer de Campo Grande.

Havia 32 inscritos. Vinte participaram do passeio.

Para quem estava sobre a bicicleta, a manhã trouxe novas sensações. Para quem assumiu a função de guia, também foi uma oportunidade de conhecer histórias e perceber o que pode acontecer quando alguém decide ajudar a transformar uma dificuldade de acesso em movimento.

Por trás daquele passeio havia uma logística que ajuda a explicar por que atividades como essa ainda são raras.

“É preciso conseguir bicicletas apropriadas, transportá-las, levar os participantes até o local e encontrar ciclistas dispostos a atuar como guias”, explicou Romildo.

Há cerca de dois anos, ele havia visto pessoas com deficiência visual participando de uma atividade semelhante. Depois, percebeu que os passeios não estavam mais acontecendo.

“Procurei saber por que não fizeram novamente e disseram que era difícil conseguir transporte, tanto dos usuários quanto das bikes, e também dos guias. Então me propus a ir atrás e organizar o transporte e os guias.”

A partir daí, começou a reunir voluntários e organizar a estrutura necessária para que o grupo pudesse voltar às bicicletas.

E a ideia não é parar por aí.

“A intenção é não parar mais e promover outros passeios”, afirmou.

Quando quem guia também aprende

Entre os voluntários estava o personal Jefferson Garais, que já pedala, mas nunca havia conduzido uma pessoa cega.

Naquela manhã, sua parceira de bicicleta foi Luzia de Alcântara.

Antes mesmo da saída, ela demonstrava a alegria de estar novamente sobre uma bicicleta.

“Eu já andei uma vez. Estou feliz com essa nova oportunidade”, contou Luzia.

Carlos André Higa, o Carlinhos, do Centro de Múltiplo Uso “Arquiteta Zuleide Simabuco Higa”, também participou do pedal. O espaço, localizado no Parque dos Poderes, serviu como ponto de concentração do grupo.

Um sonho na pista

Carlinhos conduziu Eva Ortiz, de 54 anos.

Para ela, era a primeira pedalada da vida.

“Foi uma experiência muito boa. A Eva ficou muito eufórica, foi a realização de um sonho”, contou Carlinhos.

A alegria de Eva era uma entre muitas histórias que circulavam junto com as bicicletas naquela manhã.

Romildo também pedalou com participantes e, durante o percurso, conheceu trajetórias de pessoas que perderam a visão ao longo da vida.

Dois dos ciclistas que estiveram com ele tiveram deslocamento de retina e ficaram cegos já adultos.

Um deles, Ciro, contou como precisou reconstruir a própria rotina depois da perda da visão.

“Eu trabalhava, tinha minha vida normal. Tive depressão quando perdi a vista. Com o tempo, fui aceitando.”

Romildo também conheceu a história de um jovem que perdeu a visão aos nove anos e hoje tem 25.

As conversas fizeram com que o passeio assumisse outro significado também para quem estava ali para ajudar.

“Analisando a vida deles e vendo a força de vontade que têm para viver, isso me fez refletir”, afirmou Romildo.

O desafio não termina quando o passeio acaba

Atualmente, existem sete bicicletas utilizadas nesse tipo de atividade.

“Duas ficam na ISMAC. As outras cinco estão emprestadas para um programa da Fundesporte para crianças”, explicou Romildo.

Mas até colocar as bicicletas novamente em movimento exigiu trabalho.

Segundo ele, as duas retiradas da ISMAC precisaram passar por limpeza e preparação antes do passeio porque não estavam em condições adequadas de uso.

O detalhe ajuda a revelar um desafio muito maior.

Para uma pessoa cega ter acesso ao ciclismo, não basta querer pedalar.

É preciso bicicleta disponível e em boas condições. É preciso transporte. É preciso organização. E, principalmente, é preciso alguém disposto a pedalar junto.

Uma bicicleta que fica

O passeio também deixou algo concreto para os próximos fins de semana.

Dona Tânia, mãe de Jerusa e cliente da City Bike, participou da atividade e decidiu deixar uma bicicleta disponível para atender pessoas com deficiência visual.

Romildo pretende mantê-la preparada para esse uso.

A ideia é simples: se alguém quiser pedalar em um fim de semana, terá uma bicicleta disponível e precisará encontrar um guia para dividir o caminho.

Pode parecer pouco.

Mas uma bicicleta pronta, transporte, organização e alguém disposto a seguir junto podem abrir possibilidades que, até então, pareciam distantes.

Naquele sábado, vinte pessoas com deficiência visual pedalaram pelo Parque dos Poderes.

Algumas já conheciam aquela sensação. Outras a experimentaram pela primeira vez.

Voluntários conduziram as bicicletas, indicaram curvas e anunciaram os obstáculos do caminho.

Mas, ao final do passeio, muitos deles também carregavam novas histórias.

Vinte pessoas foram pedalar. E ninguém pedalou sozinho.

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