Aos 20 anos da Lei Maria da Penha, uma história de aprendizado, alegria e recomeços transforma uma instituição em Campo Grande
Há trabalhos que cansam o corpo. Outros movimentam as mãos, despertam a mente e produzem aquela satisfação difícil de medir: a alegria de perceber que aquilo que você sabe pode transformar a vida de outra pessoa.
É essa sensação que acompanha dois encaminhados pelo Poder Judiciário, da Central de Execução de Penas Alternativas, um órgão vinculado à Vara de Execução Penal (como a 2ª VEP) responsável por gerenciar e fiscalizar o cumprimento de penas restritivas de direitos, suspensões condicionais de processos e prestação de serviços à comunidade, para ministrar aulas gratuitas de costura e barbearia no Instituto de Apoio, Capacitação e Instrução de Economia Solidária do Povo, a Aciesp, em Campo Grande.
Nesta sexta-feira, 7 de agosto, quando a Lei Maria da Penha completa 20 anos, o trabalho desenvolvido na instituição ganha um significado ainda mais especial.
A Aciesp acolhe mulheres que enfrentaram situações de violência doméstica, além de atender crianças, idosos e famílias em situação de vulnerabilidade. Ali, linhas, tecidos, máquinas de costura, pentes e tesouras se transformam em instrumentos de autonomia, geração de renda e reconstrução da autoestima.
Mas a transformação não acontece apenas com quem aprende.
Ela também alcança quem ensina.
O prazer de perceber que alguém aprendeu com você
Bruna Oliveira Rezende, de 37 anos, chegou à instituição para compartilhar um conhecimento que começou a desenvolver ainda jovem. Antes de cumprir pena, trabalhava como manicure, profissão que exercia desde os 18 anos.

Na Aciesp, foi acolhida por Ceuracy Fátima Santiago Ramos, responsável pela instituição, e assumiu uma turma com dez alunas.
O encaminhamento foi realizado por meio do juiz Albino Coimbra Neto, responsável pela Central de Execução de Penas Alternativas, a Cepa.
“O juiz Albino conversou comigo e disse: ‘Você está pagando o que deve com a sua mão de obra, com o seu trabalho’”, recorda Bruna.
A frase ajuda a explicar o sentido da iniciativa: o trabalho não aparece apenas como cumprimento de uma determinação judicial, mas como uma oportunidade concreta de devolver algo à sociedade.
Ao ensinar, Bruna acompanha o desenvolvimento de cada aluna, observa os primeiros movimentos, corrige os erros e presencia o momento em que alguém percebe que realmente conseguiu aprender.
É nesse instante que o trabalho também provoca endorfina.
A satisfação nasce do resultado, da convivência e da certeza de que uma habilidade adquirida ao longo da vida pode abrir caminhos para outras pessoas.
Para Bruna, a filha tornou-se uma das principais razões para reconstruir a própria trajetória.
“Quando a gente muda de vida, entende que não pode mais errar. Eu não podia mais errar por ela”, afirma.
Aos 22 anos, um barbeiro descobre a alegria de ensinar
Leonardo Camargo tem 22 anos e trabalha como barbeiro desde os 16. Seu pai mantém um salão no Bairro São Conrado, e a convivência com a profissão ajudou a desenvolver suas habilidades ainda na adolescência.
Na Aciesp, porém, Leonardo vive uma experiência nova.
Pela primeira vez, assumiu o papel de professor.

Às segundas e quartas-feiras, ele ministra aulas gratuitas para uma turma de aproximadamente 15 pessoas. O jovem que aprendeu cedo a dominar máquinas, tesouras e técnicas de corte agora precisa aprender também a explicar, observar e incentivar.
“Ver tanta gente querendo conhecer o nosso trabalho e aprender com a gente é muito gratificante. Eu me sinto orgulhoso”, afirma.

A alegria aparece quando os alunos demonstram interesse, superam dificuldades e começam a desenvolver segurança para realizar os próprios cortes.
Entre eles está Giovan Sopran, morador do Jardim Aeroporto, que já trabalha em um salão de beleza no centro de Campo Grande. Mesmo com experiência profissional, ele atravessa a cidade para aprender novas técnicas com Leonardo.
“Nem tenho palavras para explicar. É um sentimento muito gratificante, um carinho enorme, saber que as pessoas valorizam o nosso trabalho, querem conhecer o nosso serviço e aprender com a gente”, conta o professor.


Para Leonardo, alguns alunos já demonstram vocação e poderão transformar o aprendizado em renda, independência e novas oportunidades.
Entre as participantes está Valdirene Ferreira, que trabalha como cuidadora de idosos e encontrou no curso uma nova possibilidade profissional.
É um movimento que se multiplica: alguém ensina, outra pessoa aprende e uma nova perspectiva começa a surgir.
Do acolhimento ao sonho do próprio negócio
A história de Joelma Costa, de 47 anos, mostra como uma oportunidade pode se transformar em projeto de vida.
Vítima de violência doméstica, ela recebeu acompanhamento da Aciesp e, aos poucos, começou a reconstruir sua trajetória. Conheceu seu atual companheiro, Crisaldo Castilho.
Hoje, os dois moram no Bairro Universitário II e percorrem cerca de nove quilômetros para participar dos cursos gratuitos de barbearia e manicure.

No semestre passado, o casal também concluiu o curso de corte e costura. Agora, já começa a planejar o próprio negócio.
“Eu sempre quis aprender, mas é muito caro. Agora, estamos planejando costurar e vender camisetas”, conta Crisaldo.


Aluna de Bruna, Joelma resume a relação construída com a instituição em poucas palavras:
“Tudo aqui é especial.”
Especial porque não se trata apenas de aprender uma técnica.
É voltar a acreditar que existe futuro.
É construir autonomia depois de uma experiência de violência.
É descobrir que as próprias mãos ainda podem criar, produzir e gerar renda.
Uma estrutura para ampliar as oportunidades
Além de encaminhar os dois internos para colaborar com as atividades, o Poder Judiciário destinou R$ 1,3 milhão à Aciesp em recursos provenientes de penas pecuniárias, popularmente conhecidos como “dinheiro do crime”.

Segundo a presidente da instituição, Ceuracy Fátima Santiago Ramos, o investimento está sendo aplicado na construção de uma nova sede, com aproximadamente 685 metros quadrados.
A ampliação permitirá dobrar a capacidade de atendimento da Aciesp, que atualmente acompanha cerca de 390 famílias. A previsão é que a nova estrutura seja concluída em novembro.
Mais espaço significará novas turmas, mais pessoas atendidas e mais possibilidades de transformação.
O trabalho que devolve sentido
Ao completar 20 anos, a Lei Maria da Penha continua representando um marco essencial na proteção das mulheres e no enfrentamento à violência doméstica.
Mas sua importância também pode ser percebida nas histórias que surgem depois do acolhimento.
Na mulher que volta a acreditar em si.
Na família que começa a planejar um negócio.
Na aluna que descobre uma profissão.
No jovem barbeiro que sente orgulho ao ensinar.
Na professora que percebe que seu conhecimento pode ajudar outras mulheres a conquistar independência.
Dentro da Aciesp, segundo a Ceuracy, o trabalho movimenta o corpo, ocupa a mente e cria vínculos. Ele produz renda, responsabilidade, confiança e propósito.

E talvez seja justamente aí que mora sua força.
Quando exercer uma profissão deixa de ser apenas uma tarefa e se transforma em alegria, reconhecimento e resultado, o trabalho também provoca endorfina.
Uma endorfina que não termina quando a aula acaba.
Ela permanece na vida de quem ensinou, de quem aprendeu e de quem voltou a acreditar que recomeçar é possível.













